O Brasil começou 2026 diante de um paradoxo importante para a cadeia da reciclagem e do aço. De um lado, as exportações de sucata ferrosa seguem em alta. De outro, esse avanço não aponta necessariamente para um mercado doméstico saudável. Pelo contrário: o movimento expõe a dificuldade da indústria nacional em absorver esse material em um momento de forte pressão competitiva das importações de aço, especialmente vindas da China.
Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia, repercutidos por Revista Grandes Construções, Papo de Inox, Enfoque, Siderurgia Brasil e Coisas de Agora, o Brasil exportou 69.349 toneladas de sucata ferrosa em janeiro de 2026, alta de 16,9% sobre janeiro de 2025, quando foram embarcadas 59.323 toneladas. O número reforça uma tendência que já vinha se consolidando no fim do ano passado.

No acumulado de 2025, o cenário já havia batido recorde. Dados da Secex, divulgados e analisados por UOL Economia, IstoÉ Dinheiro, Papo de Inox, Saneamento Ambiental, Enfoque e pelo próprio Inesfa, apontaram 885.732 toneladas exportadas no ano, uma alta de 28,2% sobre 2024 e de 10,7% acima do antigo pico de 2023. Só em dezembro de 2025, os embarques chegaram a 74.690 toneladas, salto de 75% na comparação com dezembro de 2024.
Esse crescimento, porém, precisa ser lido com cuidado. Em vez de sinalizar apenas aquecimento comercial, ele indica que uma parcela crescente da sucata brasileira está encontrando saída fora do país porque o mercado interno perdeu capacidade de absorção. É nesse ponto que o recorde de exportação deixa de parecer uma notícia simplesmente positiva e passa a funcionar como alerta de mercado.
Exportação cresce, mas o sinal para o mercado interno é de alerta
Os principais destinos da sucata ferrosa brasileira continuam sendo países asiáticos como Índia, Bangladesh e Paquistão. Segundo informações atribuídas ao Inesfa e repercutidas por Papo de Inox, Revista Grandes Construções e UOL Economia, esses mercados têm apetite por sucata de alta qualidade, pronta para uso industrial e com menor custo ambiental quando comparada ao minério virgem.

Isso ajuda a explicar por que a sucata brasileira segue competitiva no exterior. O problema é que a mesma qualidade que deveria fortalecer a produção siderúrgica nacional está sendo aproveitada por outros países. Em termos práticos, o Brasil exporta um insumo valioso justamente quando parte da sua indústria interna opera pressionada e compra menos.
Clineu Alvarenga, presidente do Instituto Nacional das Empresas de Sucata de Ferro e Aço (Inesfa), entidade que representa mais de 5.500 recicladoras, resumiu esse diagnóstico em declarações reproduzidas por UOL Economia, Coisas de Agora, Papo de Inox e Monitor Mercantil. Segundo ele, o aumento das exportações reflete a dificuldade de absorção da sucata pela indústria nacional do aço, pressionada pela forte entrada de aço importado, especialmente da China. Ainda de acordo com Alvarenga, o setor de reciclagem tem capacidade de fornecer material de qualidade e responde por cerca de 60% do consumo interno das usinas.
Por que a sucata brasileira está saindo do país
O pano de fundo dessa fuga está na concorrência do aço importado. Levantamentos do Instituto Aço Brasil, citados por O Tempo, ADVFN e CNN Brasil, mostram que o Brasil importou 6,4 milhões de toneladas de aço em 2025, sendo 5,7 milhões de laminados. O avanço foi de 20,5% sobre 2024 e levou o volume ao maior nível em 15 anos. Desse total, 64% vieram da China, elevando a penetração de importados para 21%, bem acima da média histórica de 9,7%.
Esse dado ajuda a entender a lógica do problema. Se mais aço acabado entra no país a preços mais baixos, a indústria local perde espaço, reduz produção e compra menos sucata. O efeito chega até a base da cadeia: recicladores têm menos saída doméstica para o material e acabam direcionando volumes maiores ao mercado externo.
Não se trata apenas de disputa comercial. O impacto se espalha por emprego, investimento e planejamento industrial. Conforme dados do Instituto Aço Brasil e reportagens citadas no texto-base, o setor siderúrgico nacional já acumulava 5.100 empregos cortados e R$ 2,5 bilhões em investimentos suspensos até novembro de 2025. Nesse contexto, a alta das exportações de sucata deixa de ser um indicador isolado e passa a espelhar uma fragilidade mais ampla da indústria brasileira.
Como o aço chinês pressiona a siderurgia nacional
Para o setor, o problema central é que o aço chinês entra no mercado com condições que desequilibram a concorrência. O texto-base que embasa esta matéria aponta a percepção de que esse aço chega ao Brasil com preços favorecidos por subsídios e com pegada ambiental mais pesada, o que enfraquece a lógica da economia circular local. Enquanto a reciclagem pode emitir até 80% menos CO2 do que a produção a partir de minério virgem, parte desse benefício ambiental acaba sendo transferida para fora quando a sucata brasileira é exportada em larga escala.

Também por isso o debate não é apenas sobre tonelagem. Ele envolve estratégia industrial. Quando uma sucata de alta qualidade deixa o país por falta de demanda doméstica, o Brasil perde parte do valor agregado que poderia permanecer na cadeia interna, tanto em produção quanto em emprego, arrecadação e sustentabilidade.
O texto-base também registra a preocupação do setor com rumores sobre eventual venda de operações da CSN. Aqui, o ponto exige cautela: trata-se de uma possibilidade mencionada como temor de mercado, não como fato consumado. Se um movimento desse tipo vier a se confirmar no futuro, a leitura do setor é que poderia haver ampliação adicional da presença chinesa e pressão competitiva ainda maior sobre o mercado nacional.
O que pode mudar em 2026 para recicladores, compradores e usinas
Em março de 2026, segundo informações citadas da Folha de S.Paulo e do Jornal do Comércio, o governo brasileiro anunciou tarifas adicionais entre US$ 323 e US$ 670 por tonelada sobre aço chinês, em medida antidumping. O setor vê a decisão como uma tentativa de frear parte da distorção competitiva, mas ainda é cedo para afirmar o tamanho do efeito prático.
A expectativa mais cautelosa é de algum alívio ao longo do ano, sem solução imediata. O próprio texto-base menciona leitura de mercado segundo a qual empresas como a Gerdau preveem redução leve das importações em 2026, com mecanismos possivelmente mais robustos a partir de 2027. Ao mesmo tempo, análises de Abimetal-Sicetel, Click Petróleo e Gás e textos de Mirian Gasparin reforçam que o plano chinês de modernização da siderurgia, com foco em eficiência e acesso a sucata de qualidade, pode manter a pressão internacional elevada.
Para recicladores e sucateiros, a conclusão prática é clara: 2026 tende a continuar sendo um ano de atenção redobrada. O setor pode seguir encontrando oportunidades na exportação, mas isso não elimina o risco de enfraquecimento do mercado doméstico. Já para compradores e usinas, o desafio será acompanhar a política comercial, a formação de preços, o dólar e a capacidade real de retomada da produção brasileira.

O que observar daqui para frente
Quem atua no setor deve monitorar quatro pontos principais nos próximos meses:
o ritmo das exportações de sucata ferrosa;
a reação das usinas brasileiras às medidas antidumping;
o comportamento das importações de aço chinês;
a evolução dos preços e da demanda no mercado interno.
Em resumo, a abertura de 2026 mostra um setor de reciclagem capaz de gerar material competitivo, mas inserido em uma cadeia industrial que segue sob forte pressão externa. A exportação em alta, sozinha, não conta toda a história. No caso da sucata ferrosa brasileira, ela pode significar mais do que bons embarques: pode indicar que o país está deixando escapar um insumo estratégico justamente quando mais precisaria fortalecê-lo aqui dentro.
Para acompanhar esse cenário com mais clareza, o leitor pode seguir as atualizações do Sucatas.com, consultar conteúdos relacionados sobre mercado e siderurgia, monitorar referências de preços e usar o Guia e os Classificados para acompanhar oportunidades e movimentos da cadeia.
FONTES CITADAS NESTA MATÉRIA
Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia
Instituto Nacional das Empresas de Sucata de Ferro e Aço (Inesfa)
Revista Grandes Construções
Papo de Inox
Enfoque
Siderurgia Brasil
Coisas de Agora
UOL Economia
IstoÉ Dinheiro
Saneamento Ambiental
Monitor Mercantil
Instituto Aço Brasil
O Tempo
ADVFN
CNN Brasil
Folha de S.Paulo
Abimetal-Sicetel
Mirian Gasparin
Click Petróleo e Gás
Jornal do Comércio
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