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Sucata de alumínio entra em disputa: exportações para a Ásia avançam e recicladores relatam falta de insumo
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Sucata de alumínio entra em disputa: exportações para a Ásia avançam e recicladores relatam falta de insumo

Setor vê pressão sobre a matéria-prima e a China ganha peso nos embarques. Dados confirmam avanço das exportações, mas a apuração recomenda cautela com o percentual de 590% atribuído ao período desde 2022.

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Leandro Rodrigues (Sucatas.com)

Publicado em 07 de agosto de 2026 Atualizado em 08/08/2026
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A sucata de alumínio brasileira está virando um insumo mais disputado do que parte da indústria consegue encontrar no mercado doméstico? A exportação para a Ásia já é grande o suficiente para apertar o abastecimento? E isso significa que latinhas, perfis, rodas, chapas e outros tipos de sucata vão subir de preço?

A resposta curta é: há sinais concretos de pressão, mas não há base segura para decretar uma falta generalizada de sucata no Brasil — e muito menos para concluir que todos os preços vão subir automaticamente.

O alerta ganhou força em 6 de agosto, quando uma reportagem reproduzida pelo DatamarNews, com origem em O Globo, informou que cerca de 80% das exportações brasileiras de sucata de alumínio estariam indo para a Ásia, segundo dados atribuídos à Associação Brasileira do Alumínio (ABAL). A China responderia sozinha por quase um quarto do total. A mesma reportagem trouxe relatos de empresas que afirmam ter sentido escassez de matéria-prima em operações brasileiras.

O ponto mais importante para quem vive do mercado de sucatas é separar três coisas: o crescimento real do fluxo exportador; os episódios de falta relatados por empresas; e a formação do preço no pátio. Elas se relacionam, mas não são a mesma coisa.

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O alerta é real — mas não é diagnóstico de desabastecimento nacional

A reportagem de 6 de agosto informa que a Novelis fechou em 2025 um centro de coleta de sucata em Juiz de Fora (MG) por falta de oferta, situação que a empresa atribui à concorrência com exportadores. O texto também registra que a Alumini1 passou uma semana sem acesso à sucata em março de 2026 e associou o episódio ao tratamento tributário então vigente para vendas domésticas.

Esses relatos mostram que a pressão deixou de ser apenas uma hipótese teórica. Há empresas dizendo que tiveram dificuldade operacional para comprar o insumo. Isso é jornalisticamente relevante porque a sucata é matéria-prima direta para plantas de reciclagem e para produtos com alto conteúdo reciclado.

Mas o setor não fala com uma única voz. Em reportagem da Folha de S.Paulo publicada em maio, Clineu Alvarenga, presidente do Instituto Nacional da Reciclagem (Inesfa), contestou a tese de falta generalizada e defendeu o livre comércio. A posição é que o Brasil historicamente exporta materiais que não encontram compra doméstica em condições competitivas e que restrições poderiam prejudicar a valorização dos recicláveis.

Esse contraponto muda a formulação correta da matéria: não é “o Brasil ficou sem sucata”. É “há uma disputa crescente por sucata, com episódios de escassez relatados por recicladores e divergência sobre a necessidade de limitar exportações”.

O que os dados de comércio exterior realmente mostram

A série mais sólida encontrada confirma que as exportações cresceram, mas também revela um quadro mais complexo do que a ideia de que “toda a sucata está indo embora”. Segundo dados do MDIC citados pela Folha, o Brasil exportou 28 mil toneladas de sucata de alumínio em 2020 e 42,4 mil toneladas em 2025 — alta de 51% em cinco anos.

No mesmo período, as importações também aumentaram. Em 2025, chegaram a 181,3 mil toneladas. Isso significa que, naquele ano, o Brasil importou aproximadamente 4,3 vezes o volume que exportou. O país, portanto, continuou sendo importador líquido de sucata de alumínio.

Esse aparente paradoxo ajuda a entender o mercado. Um país pode importar muito e, ao mesmo tempo, enfrentar aperto em determinadas regiões, qualidades, ligas, formatos ou janelas de entrega. Sucata de alumínio não é uma mercadoria totalmente homogênea: latinha prensada, perfil limpo, roda, cabo, chaparia, bloco e material misto possuem composição, contaminação, rendimento metalúrgico e logística diferentes.

Os dados mais recentes disponíveis publicamente no MDIC, na data de fechamento desta matéria, cobrem janeiro a julho de 2026. O arquivo aberto é detalhado por NCM, país, estado, via, peso líquido e valor FOB. Como o download bruto de 2026 apresentou falha técnica durante esta apuração, o Sucatas.com não publica aqui totais de junho e julho que não conseguiu reprocessar independentemente.

Como verificação complementar, a IEX Alumínio, com base no Comex Stat, contabiliza 22,30 mil toneladas exportadas entre janeiro e maio de 2026. A China aparece com 5,54 mil toneladas — aproximadamente 24,8% do total do período — seguida por Coreia do Sul, Tailândia e Índia. O dado corrobora a leitura de que a Ásia é hoje um eixo relevante de demanda e confirma, ao menos até maio, a participação chinesa próxima de um quarto dos embarques.

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O número de 590% não fecha com a série total encontrada

Um número da reportagem de 6 de agosto exige cautela especial. O texto afirma que os embarques teriam aumentado 590% desde 2022. A apuração do Sucatas.com não conseguiu reproduzir esse percentual para o total nacional da posição NCM/SH 7602, “desperdícios e resíduos de alumínio”.

O Anuário Estatístico 2022 da ABAL, compilado com dados Siscomex/Secex, registra 19,1 mil toneladas exportadas em 2022. A série divulgada pela Folha com base no MDIC chega a 42,4 mil toneladas em 2025. Entre esses dois pontos, o crescimento é de aproximadamente 122%, e não 590%.

É possível que o percentual de 590% se refira a um recorte específico — determinado destino, período ou subconjunto —, mas a versão acessível da reportagem não explicita o denominador. Por isso, o Sucatas.com não usa o número de 590% em título, infográfico ou chamada até que o recorte seja esclarecido.

NOTA DE CHECAGEM
Dado publicável com segurança: 19,1 mil t exportadas em 2022 (ABAL/Secex) e 42,4 mil t em 2025 (MDIC citado pela Folha), uma alta aproximada de 122% entre os dois pontos. O “590% desde 2022” permanece não reproduzido para o total nacional e deve ficar fora de peças promocionais.

Por que a sucata virou matéria-prima estratégica

A disputa é mais relevante porque a reciclagem já deixou de ser uma atividade periférica na cadeia brasileira do alumínio. Em julho, a ABAL informou que cerca de 57% do consumo de alumínio no país é abastecido por metal reciclado — mais que o dobro da média mundial, segundo a associação.

No caso das latas para bebidas, o país reciclou 97,3% do volume em 2024, equivalente a 33,9 bilhões de unidades e 417,7 mil toneladas, segundo ABAL e Abralatas. O alumínio reciclado também pode consumir até 95% menos energia do que a produção a partir do metal primário.

Isso transforma a sucata em insumo industrial estratégico. Quanto maior o conteúdo reciclado desejado por fabricantes, embalagens, transporte, construção e outros segmentos, maior a necessidade de uma cadeia capaz de coletar, classificar, prensar, transportar e entregar material com qualidade e previsibilidade.

Em 2024, o processamento nacional de sucata de alumínio chegou a 912,6 mil toneladas, segundo dados da ABAL citados pela Folha. O crescimento da capacidade de reciclagem aumenta o valor da sucata para a economia circular, mas também eleva a competição quando a oferta recuperada não cresce na mesma velocidade ou quando compradores externos oferecem condições mais atrativas.

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A mudança tributária de abril também entrou no tabuleiro

O relato da Alumini1 sobre março precisa ser lido com contexto. A empresa disse que passou uma semana sem sucata e associou aquele momento a uma cobrança temporária de PIS/Cofins sobre material vendido no mercado interno, que teria aumentado o incentivo para fornecedores exportarem.

Pouco depois, a Lei nº 15.394/2026 alterou a Lei nº 11.196. Desde a publicação, em 23 de abril, a norma autoriza créditos de PIS/Pasep e Cofins na compra de desperdícios, resíduos e aparas — incluindo alumínio na posição 76.02 — por pessoa jurídica do lucro real que use o material como matéria-prima ou material secundário. A venda desses resíduos para pessoa jurídica do lucro real também passou a ser isenta dessas contribuições.

A lei confirma que o tratamento tributário da sucata mudou logo depois do episódio de março. O que ela não prova, sozinha, é que a tributação tenha sido a única ou principal causa da decisão de fornecedores de exportar. Preço internacional, câmbio, qualidade do lote, prazo de pagamento, frete e demanda também podem alterar a escolha do vendedor.

Retenção de insumo ou livre comércio? O debate está aberto

A ABAL defende que o país discuta instrumentos para preservar maior disponibilidade de sucata para a indústria doméstica. Em maio, o MDIC informou à Folha que um pedido de taxação das exportações estava em análise técnica na Câmara de Comércio Exterior (Camex). A reportagem de 6 de agosto volta a registrar defesa de mecanismos de controle, como imposto de exportação ou prioridade ao abastecimento interno.

No outro lado, o Inesfa sustenta que o livre comércio ajuda a equalizar preços e a valorizar materiais recicláveis. Operadores de comércio exterior ouvidos pela Folha também contestaram a ideia de dano generalizado ao setor doméstico.

A busca nas páginas públicas da Camex realizada para este pacote não localizou, até o fechamento de 7 de agosto, resolução específica instituindo imposto de exportação sobre a sucata de alumínio NCM 7602. A agenda da Camex, no entanto, segue ativa e o tema merece monitoramento porque qualquer medida pode mudar rapidamente o cálculo comercial entre venda doméstica e exportação.

Isso já significa sucata mais cara? Não necessariamente

Mais compradores disputando o mesmo material podem aumentar o poder de negociação de alguns vendedores. Mas transformar isso em “preço da sucata vai subir” seria um salto que os dados não autorizam.

O valor pago no pátio depende do tipo de alumínio, liga e pureza; nível de contaminação; forma do lote; volume; região; distância até o comprador; custo do frete; necessidade de beneficiamento; condições de pagamento; câmbio; demanda da fundição ou reciclador; e alternativas de exportação.

Uma latinha prensada em grande volume, um perfil limpo, uma roda de liga conhecida e um material misto com contaminantes não respondem da mesma forma a uma mudança de demanda internacional. Mesmo dentro da mesma categoria, a condição comercial líquida — preço menos logística, perdas e prazo — pode ser mais importante do que a cotação nominal.

Para o vendedor, o sinal mais útil não é apostar em uma alta nacional, e sim comparar propostas equivalentes, separar melhor os materiais e calcular o valor líquido do lote. Para o comprador, o desafio é ampliar capilaridade de coleta, previsibilidade de estoque e relacionamento com fornecedores sem tratar toda sucata como um único produto.

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O que o pátio deve acompanhar daqui para frente

O primeiro indicador é o destino das exportações no Comex Stat: se a participação asiática continuar crescendo, especialmente em categorias e regiões onde a indústria doméstica compra o mesmo material, a pressão competitiva tende a permanecer relevante.

O segundo é o balanço entre importações e exportações. O fato de o Brasil importar mais do que exporta mostra que a discussão não é simplesmente “guardar toda a sucata aqui”, mas entender quais qualidades e fluxos estão faltando, onde estão os gargalos e quanto custa trazer material de fora.

O terceiro é a política comercial. Uma eventual taxa, licença não automática ou outra medida sobre exportação mudaria o preço relativo entre mercado doméstico e exterior. Até que exista decisão oficial, qualquer previsão sobre efeito de uma medida deve ser tratada como cenário, não como fato.

O quarto é o comportamento dos próprios recicladores: estoques, centros de coleta, contratos, capacidade de fundição e necessidade de conteúdo reciclado. Mudanças nesses pontos podem chegar ao pátio antes mesmo de aparecerem em uma média nacional de preço.

Por fim, vale acompanhar a formação de preço de cada material. A Tabela de Preços Sucatas.com pode servir como referência para comparação, lembrando que os valores variam por região, tipo, qualidade, volume e condição comercial. O Sucatas.com não compra, não vende e não intermedeia negociações.

LEITURA FINAL
O dado mais importante não é que “a sucata está acabando”, mas que ela está se tornando um insumo industrial globalmente disputado. Para o mercado brasileiro, isso aumenta a importância de coleta eficiente, classificação correta, logística, informação de preço e capacidade de negociar com mais de um comprador — sem confundir disputa por material com valorização garantida.

Consulte a pesquisa de mercado

Use a Tabela de Preços Sucatas.com como referência e compare o contexto do seu material antes de negociar.

Acessar a Tabela de Preços

O QUE ISSO MUDA NA PRÁTICA PARA O SETOR?

  • Compradores e recicladores

Aumenta a importância de planejamento de estoque, diversificação de fornecedores, compras por região, contratos/relacionamentos mais estáveis e critérios de qualidade. O risco não é igual para todo tipo de sucata.

  • Vendedores, sucateiros e depósitos

Mais compradores potenciais podem ampliar a disputa comercial por alguns lotes. Compare propostas líquidas, separe materiais, registre qualidade e não presuma que toda sucata de alumínio terá a mesma valorização.

  • Cooperativas e catadores

Materiais bem separados, limpos e concentrados em volume podem ganhar atratividade. A prioridade deve ser organização do lote e comparação responsável de compradores, não retenção especulativa sem estrutura de armazenagem.

  • Fundições e indústrias

Disponibilidade irregular pode elevar custo de aquisição, aumentar necessidade de importação ou dificultar metas de conteúdo reciclado. Mapeamento de fornecedores e especificação de ligas ficam ainda mais relevantes.

  • Transportadores e operadores

Mudanças no destino dos lotes podem alterar rotas, consolidação de cargas e demanda por transporte até portos, recicladores ou fundições. O efeito depende da região e do tipo de material.

  • Prestadores de classificação e beneficiamento

Quanto mais disputado o material, maior o valor de reduzir contaminação, identificar ligas e entregar sucata com especificação clara e melhor rendimento metalúrgico.

  • Usuários do Guia Sucatas.com e Classificados Sucatas.com

O cenário aumenta a utilidade de localizar compradores, recicladores, transportadores e fornecedores e de divulgar lotes e interesses. O portal facilita a conexão e a divulgação, mas não garante comprador, venda ou preço.

  • Usuários da Tabela de Preços Sucatas.com

Use a referência para contexto e comparação. O preço efetivo continua dependente de região, qualidade, volume, logística, prazo e comprador.

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FONTES CITADAS NESTA MATÉRIA

Escrito por

Leandro Rodrigues (Sucatas.com)

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