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Queda do rPET expõe impasse entre logística reversa e realidade do mercado
Mercado Plástico Legislação

Queda do rPET expõe impasse entre logística reversa e realidade do mercado

Mesmo com metas obrigatórias de conteúdo reciclado em vigor, a retração da demanda e a pressão nos preços revelam o difícil ajuste entre a legislação ambiental e a viabilidade econômica da cadeia.

Publicado por

Leandro Rodrigues (Sucatas.com)

Publicado em 29 de abril de 2026 Atualizado em 30/04/2026
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O mercado brasileiro de PET reciclado, conhecido como rPET, vive um momento contraditório em abril de 2026. De um lado, o país avança na implementação de metas obrigatórias para uso de conteúdo reciclado em embalagens plásticas. De outro, dados de mercado apontam queda relevante na demanda e pressão sobre os preços do material reciclado.

Segundo dados publicados pelo Brazil Economy, a demanda por rPET caiu 54% em abril de 2026, enquanto os preços recuaram 41%, expondo um descompasso entre a regra ambiental e a realidade econômica do setor.

Esse movimento acende um alerta para recicladoras, cooperativas, catadores, compradores e indústrias de embalagem. A logística reversa não depende apenas de metas legais. Para funcionar de forma sustentável, ela precisa de demanda real, preço viável, material com qualidade, contratos de compra e rastreabilidade.

O paradoxo do rPET: meta em alta, compra em baixa

O Decreto nº 12.688/2025 instituiu o sistema de logística reversa de embalagens de plástico e regulamentou dispositivos da Política Nacional de Resíduos Sólidos. O texto oficial define que o sistema envolve fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, abrangendo o ciclo de vida das embalagens plásticas.

O mesmo decreto também estabeleceu metas de conteúdo reciclado incorporado às embalagens plásticas. No Anexo II, o índice nacional começa em 22% em 2026 e avança gradualmente até 40% em 2040.

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Na prática, isso significa que parte da indústria precisa incorporar material reciclado pós-consumo em suas embalagens. A obrigação começou em janeiro de 2026 para empresas de grande porte e passa a valer em julho de 2026 para empresas de pequeno e médio porte, conforme o texto do decreto.

O problema é que a compra efetiva do material não acompanhou, no mesmo ritmo, a pressão regulatória.

De acordo com o Poder360, dados da consultoria MaxiQuim apontam queda de cerca de 30% nas compras de rPET. A reportagem também destaca que o problema não estaria na falta de oferta, mas na falta de demanda por parte de quem fabrica embalagens.

Ou seja: há regra exigindo mais reciclado, há capacidade produtiva relevante no país, mas a decisão de compra ainda está abaixo do necessário para dar estabilidade à cadeia.

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A resina virgem barata pressiona o plástico reciclado

Um dos fatores centrais desse impasse é a concorrência da resina virgem.

A resina virgem é o plástico produzido diretamente a partir de matérias-primas petroquímicas, sem reaproveitamento pós-consumo. Quando esse material fica barato, muitas indústrias reduzem o interesse pelo reciclado, especialmente se o reciclado exigir ajustes técnicos, rastreabilidade, homologação, limpeza, regularidade de fornecimento ou adaptação de processo.

Segundo o Poder360, representantes da cadeia de reciclagem apontam que a sobrecapacidade de produção de resinas virgens nos Estados Unidos e na China ampliou a oferta global e reduziu preços, tornando o material virgem mais competitivo. A reportagem também informa que, em alguns casos, o plástico reciclado chegou a custar até 41% menos do que o virgem.

Essa disputa cria uma pressão difícil para o reciclador. A cadeia do rPET envolve coleta, triagem, transporte, lavagem, moagem, descontaminação, granulação, controle de qualidade e, em muitos casos, comprovação documental. Esses custos não desaparecem apenas porque a resina virgem ficou mais barata.

Por isso, mesmo quando o preço do rPET cai, a margem de quem opera a reciclagem pode ficar apertada.

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O decreto aumenta a exigência, mas o mercado ainda busca equilíbrio

O Decreto nº 12.688/2025 também trata de rastreabilidade, comprovação e operacionalização da logística reversa. O texto prevê, entre outros pontos, o uso de notas fiscais, Manifesto de Transporte de Resíduos e verificação de resultados para comprovação das massas recuperadas.

Para o setor, isso tende a aumentar a importância de três pontos:

  • documentação da origem e circulação do material;

  • qualidade do PET separado e beneficiado;

  • regularidade no fornecimento para recicladoras e indústrias.

Esse é um ponto importante: a meta legal pode aumentar a demanda no médio prazo, mas ela não resolve sozinha o problema de preço, qualidade e contratação.

Se a indústria comprar apenas quando o preço estiver muito baixo, a cadeia fica instável. Se recicladores e cooperativas não conseguirem entregar material limpo, rastreável e em volume regular, também perdem competitividade.

O impasse está exatamente nesse ponto: a lei puxa o mercado para a circularidade, mas a economia real ainda responde ao preço, ao risco, ao custo operacional e à segurança de fornecimento.

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Cooperativas e catadores sentem primeiro

A ponta mais vulnerável da cadeia costuma sentir os efeitos antes de todos.

Quando a demanda cai e o preço do rPET recua, o impacto chega rapidamente ao valor pago por materiais separados, fardos de PET e resíduos plásticos pós-consumo. Para cooperativas, catadores e pequenos operadores, isso significa menor margem, menor giro e maior dificuldade para manter a operação.

O decreto reconhece a importância dessa base ao determinar que o sistema de logística reversa priorize cooperativas, associações e outras formas de organização popular de catadoras e catadores nas etapas de estruturação, implementação e operacionalização.

Mas prioridade regulatória não é a mesma coisa que renda garantida. Para que a base seja fortalecida, é necessário que o material tenha saída comercial, que os compradores reconheçam qualidade e que a cadeia consiga remunerar coleta, triagem e beneficiamento.

Em momentos de queda, a separação correta ganha ainda mais importância. PET misturado, sujo, contaminado ou mal armazenado tende a sofrer desconto maior, justamente quando o mercado já está comprador e seletivo.

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O que isso muda na prática para o setor?

  • Para compradores:
    Os preços mais baixos aumentam o poder de negociação no curto prazo. Mas empresas sujeitas às metas precisam avaliar contratos de médio e longo prazo, porque depender apenas de compra pontual pode gerar risco de falta de material qualificado quando a demanda voltar.

  • Para vendedores de PET e rPET:
    O mercado está mais seletivo. Estoque parado, material contaminado e baixa padronização podem pesar mais na negociação. A prioridade deve ser separar melhor, armazenar corretamente e buscar compradores com demanda recorrente.

  • Para recicladores:
    Eficiência operacional, rastreabilidade e controle de qualidade passam a ser diferenciais. Em um mercado pressionado, quem entrega material mais confiável tende a defender melhor seus contratos.

  • Para cooperativas e catadores:
    A queda de preço exige mais cuidado com qualidade. Separar PET por cor, reduzir contaminação e melhorar prensagem e armazenamento pode ajudar a evitar descontos adicionais.

  • Para indústrias:
    O momento pode representar oportunidade de compra estratégica, mas também exige planejamento. O cumprimento das metas depende de material disponível, documentação e fornecedores capazes de entregar regularidade.

  • Para usuários do Guia e dos Classificados Sucatas.com:
    A instabilidade aumenta a importância de buscar contatos diretos, comparar compradores, anunciar materiais com clareza e formar parcerias mais estáveis dentro da cadeia.

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O próximo passo: preço, qualidade e conexão comercial

O cenário atual não significa que a logística reversa falhou. Significa que o mercado está em uma fase de ajuste.

A tendência regulatória aponta para mais conteúdo reciclado nas embalagens. Mas, para isso virar mercado de verdade, será necessário alinhar quatro fatores:

  • demanda industrial;

  • preço viável;

  • qualidade do material;

  • comprovação e rastreabilidade.

Para quem atua no setor, acompanhar preço deixou de ser apenas curiosidade. Passou a ser ferramenta de decisão. Em momentos de queda, vender sem referência pode significar aceitar valores ruins. Comprar sem análise também pode gerar estoque, risco de qualidade ou dificuldade de destinação.

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Conclusão

A queda do rPET expõe um impasse central da economia circular: não basta criar obrigação legal se a cadeia econômica ainda não está plenamente ajustada.

O Decreto nº 12.688/2025 pressiona a indústria a usar mais conteúdo reciclado. Mas a concorrência da resina virgem, a cautela de compradores e a retração da demanda mostram que o setor ainda precisa construir previsibilidade comercial.

Nos próximos meses, o ponto decisivo será observar se a entrada das pequenas e médias empresas nas metas, prevista para julho de 2026, ajudará a ampliar a demanda por material reciclado. Até lá, recicladores, cooperativas e vendedores precisarão trabalhar com mais controle de qualidade, documentação e leitura de mercado.

Próximo passo

Para acompanhar melhor as variações do mercado de plásticos reciclados, consulte a Tabela de Preços do Sucatas.com. E, para encontrar compradores, fornecedores, cooperativas, recicladoras e parceiros do setor, use o Guia Sucatas.com e os Classificados Sucatas.com.


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FONTES CITADAS NESTA MATÉRIA

  • Brazil Economy — dados de queda de 54% na demanda e 41% nos preços do rPET em abril de 2026.

  • Decreto Federal nº 12.688/2025 / Diário Oficial da União / Imprensa Nacional — instituição do sistema de logística reversa de embalagens plásticas, metas, prazos e regras de conteúdo reciclado.

  • Poder360 — contexto sobre retração nas compras de rPET, dados atribuídos à MaxiQuim, pressão da resina virgem e sobrecapacidade global.

  • MaxiQuim — mencionada pelo Poder360 como fonte do levantamento sobre queda de cerca de 30% nas compras de rPET.

  • ABIPET — mencionada em reportagens setoriais como referência sobre capacidade e reciclagem de PET no Brasil.

Escrito por

Leandro Rodrigues (Sucatas.com)

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