Foi
durante um acesso de fúria causado pela tecnologia, há cerca
de cinco anos, que
Naná Hayne,
50, passou a ver peças de computador como matéria prima para
seus trabalhos artísticos. Numa noite quando o PC e a
impressora insistiram em não funcionar, a artista plástica
puxou um cabo com tanta força que, perto de arrebentar, ele
revelou tons coloridos. Já conformada com a falha técnica e
movida pela curiosidade, Naná descascou o cabo com um
estilete e depois partiu para a exploração do interior do
PC. "Já viu uma placa-mãe? Parece Brasília vista de cima",
compara.
A partir daí ela adotou componentes de equipamentos
tecnológicos, sempre usados, em suas obras e também em
bijuterias – as chamadas "tecnojóias". Nesse processo de
criação, vale apostar em fios coloridos para dar forma à
mulher da tela e preencher seus lábios com um pedaço de
placa-mãe vermelha (sim, agora a opção de tons é maior). Se
essa mesma peça ainda agradar no tom verde, ela pode servir
de matéria-prima para um par de brincos ou pingente de
colar. Dá também para usar teclas, sejam elas de PCs ou de
celulares, na montagem de anéis.
Essas peças de computador, muitas das quais a artista
plástica já conhece por nome, são todas doadas por técnicos
em informática. "Quando eles têm algo diferente, guardam e
me dão." Até agora, contando somente as bijuterias, foram
mais de 500 peças -- nenhuma repetida, segundo Naná. Os
preços das "tecnojóias" variam de R$ 10 a R$ 60, e as telas
têm valor diferenciado.
Naná se
sustenta com a venda de suas obras, mas afirma que o foco do
trabalho não está somente na comercialização das peças. Ela
também quer chamar atenção para a questão do lixo eletrônico
que, segundo a organização não-governamental Greenpeace,
soma 50 milhões de toneladas a cada ano.
"Temos de pensar na reutilização desses componentes, tão
pouco duráveis. Os fabricantes não podem apenas colocar um
produto no mercado: devem pensar em sua manutenção e
destino, depois de descartados."
Para divulgar as possibilidades de reutilização do lixo
eletrônico, ela realiza palestras para arquitetos, artistas,
artesãos, designers, decoradores, engenheiros e
profissionais das mais diversas áreas. Além disso, procura
parcerias com empresas para colocar em prática projetos de
reutilização da sucata criada na era do iPod. "Nas feiras de
tecnologia, os estandes poderiam ser decorados com lixo
eletrônico. Qualquer companhia que pensasse nesse tipo de
ação atrairia muito mais interesse e conseguiria mais
divulgação", exemplifica.
Fã declarada de tecnologia -- até mesmo quando as peças do computador ainda estão em funcionamento --, ela começou a usar ferramentas de comunicação on-line em “mil novecentos e guaraná com rolha”, quando conheceu o serviço videotexto, também chamado de “avô do chat” por Naná. “Fiquei alucinada com as possibilidades e gastava fortunas com a Telesp”, conta.
Hoje ela tem blog, Flickr, Orkut e Twitter, sendo este último serviço o principal alvo de sua irritação na internet: atualmente ele tem ficado fora do ar com bastante freqüência. Quem sabe daí surja outra inspiração artística, como aconteceu na noite em que Naná puxou o cabo da impressora?

