Adquirir uma
carroça em São Paulo por si só é uma experiência. Por
indicação de um carroceiro que abordei nas ruas do centro, um
negro alto, forte e sem os dentes da frente, vou comprar a
minha em um tal de Alemão, um dos melhores fabricantes,
segundo fama conquistada no boca-a-boca.
A "loja" do Alemão fica escondida sob uma ponte, no Bom
Retiro. Lugar escuro, vizinho a uma pequena favela cortada por
trilhos. Um sinal intermitente avisa a aproximação de um trem
que só passa de meia em meia hora.
Um carroceiro cruza os trilhos e pára diante de um portão
velho, onde grita: "Alemão, Alemão!" O portão se abre,
descortinando sucatas e restos de carros alegóricos espalhados
por um terreno amplo coberto pela ponte.
Alemão é um homem com cerca de 1,65 m, branco, cabelos claros,
barba cerrada, roupas encardidas. "Você vende carroça?",
pergunto. "Vendo. Entra aí", convida.
Uma boa carroça ali custa R$ 250. Em geral, a encomenda leva
de três a quatro dias para ficar pronta. Por sorte, um
carroceiro havia feito o pedido, mas não apareceu para buscar
o produto, um conjunto de ferro que pesa 90 kg. "Fico com
ela", digo.
Um outro carroceiro aparece tão logo empunho o carrinho. "Tá
começando?", ele questiona. Digo que sim e aproveito para
pedir dicas. Onde poderia vender papelão? Ele diz que costuma
ir a um lugar próximo à sede da escola de samba Camisa Verde e
Branco, na Barra Funda. "E para dormir?" No albergue Dom
Bosco, no Bom Retiro. "Lá tem até chuveiro com água quente",
completa.
Na semana seguinte, esses dois lugares funcionarão como os
principais pontos das minhas idas e vindas com aquela carroça
pelas ladeiras e ruas congestionadas de São Paulo, disputando
espaço com seus 3,5 milhões de veículos.
A caracterização
Passo alguns dias observando o trabalho dos carroceiros. Não
há padrão, a não ser o da pobreza. Vejo trabalhadores de
bermuda tactel, jeans ou moletom. De boné ou sem. Chinelo ou
tênis. Camisas com motivos tropicais, xadrez ou lisas,
camisetas de algodão brancas e coloridas. Alguns vão de peito
nu.
Do meu guarda-roupa, vou selecionando possíveis "uniformes" em
um saco de náilon, comprado na feira por R$ 3. Jogo lá dentro
um saquinho com escova de dente, creme dental, sabonete e
desodorante. Em outro saco, uma câmera, equipamento para medir
os batimentos cardíacos, celular, cuecas, meias. Visto uma
calça jeans rasgada e uma camiseta com dois furos. Estou
pronto.
Vou para a porta do albergue Dom Bosco às 8h da terça-feira,
dia 8 de abril, sem a carroça. Espero, do lado de fora, até as
13h30 para falar com a assistente social. Ela dá as caras,
acompanhada de um segurança. Diz que só há vaga para
carroceiros. "Minha carroça está em outro lugar", esclareço.
Sou convidado a entrar.
A assistente estranha o fato de eu ter "boa aparência", apesar
da barba crescida e da camiseta encardida. Para conseguir
minha vaga, respondo a várias perguntas. Como soube do
albergue? Há quanto tempo estou em situação de rua? Onde meus
pais moram? Não poderia ficar na casa de amigo? Bebo ou uso
drogas?
Sou aceito depois de meia hora de conversa. Estou agora bem
próximo de um grupo que, segundo pesquisa da prefeitura, de
2005, é formado por homens (90%), com idades entre 41 e 55
anos (48%).
O Albergue
Ainda desconfiada, a assistente inicia uma breve explicação
sobre a rotina no abrigo. É um lugar onde vivem cerca de 50
pessoas, a maioria homens, mas também mulheres e crianças.
Alguns conselhos são repetidos: "Estamos oferecendo uma
facilidade. Não é para se acomodar, se tornar dependente dessa
oferta"; "É importante manter coisas de valor trancadas no
armário. Não deixe nada espalhado nem no banheiro"; "Não
chegue bêbado nem alterado por drogas. Não chegue após as 22h,
a não ser que tenha autorização". Por último, o aviso: "Não
damos refeições".
A conversa prossegue albergue adentro. Um galpão com uns 10 m
de frente por 40 m de fundos. Um pequeno jardim, ao ar livre,
dá mais vida à parte da frente. Nos fundos, ficam os
banheiros, a cozinha e a lavanderia.
O chão é de cimento; o teto, de telhas de amianto. Em toda a
extensão do salão, mais de 20 pares de camas com armários de
madeira, de cada lado, formam dois conjuntos espelhados. Entre
uma cama e outra, meio metro.
Sobre os armários, o toque pessoal de cada carroceiro:
coleções de brinquedo, caixas de remédio, produtos de higiene.
Como se a decoração de um lar coubesse toda ali. Em frente às
camas, ficam estacionadas as carroças.
Paramos em frente ao espaço onde vou passar as próximas três
noites: uma cama de colchão nu e um armário vazio. Momentos
depois, sou liberado da conversa para, enfim, buscar minha
carroça, que está a dez quadras. O trajeto serve para entender
o funcionamento dos freios (dois pedaços de pneus pregados às
hastes traseiras).
De volta ao albergue, a primeira providência é arrumar a cama,
com lençóis trazidos pela assistente. Ela avisa que, durante a
semana, grupos de alberguistas se revezam na limpeza. A escala
fica pregada em um mural.
Dentro do armário, que deveria estar vazio, há um bilhete de
loteria. Alguém sem sorte esqueceu por ali.
Pouco depois das 18h, uma televisão, suspensa em uma das
laterais, é ligada. Alguns carroceiros ajeitam o lixo
recolhido de suas carroças, enquanto assistem à novela. Outros
já têm em mãos toalha e sabonete para o banho.
Para usar o banheiro, é preciso retirar uma chave com o
vigilante. Para os homens, há quatro cabines no fundo do
galpão: limpas, azulejadas, com vaso sanitário e pia brancos e
uma parede delimitando a área de banho.
Dá para se trancar e ter privacidade. A água é quente e bem
servida. Mas só funciona em horários predeterminados. Até a
das torneiras, em vários momentos, é desligada. Lavar roupa,
só às quartas. A conta de água, pregada no mural, aponta o
valor de R$ 2.050 (o local é bancado por uma parceria entre a
Prefeitura e os salesianos).
Às 22h, as luzes se apagam. Uma gravação de quase meia hora
com repetições do "Pai Nosso", da "Ave Maria" e de outras
orações sinaliza a hora de dormir. No escuro, o silêncio é
quebrado pelo choro de uma criança, pelo trem que passa ao
lado e por roncos. Ainda há o zumbido dos pernilongos. Ao meu
lado, um senhor usa o cobertor até a cabeça para se proteger
de suas picadas.
Segundo dia
Na manhã seguinte, somos despertados às 6h pelas mesmas
orações. Há fila nos banheiros. Deixo o albergue às 7h30.
Meu roteiro matinal passa pelos bairros de Higienópolis,
Cerqueira César e Pinheiros. Subir a avenida Angélica nem é
tão difícil, pois a carroça está vazia. Vou observando
lixeiras e caçambas. Há pouco material. Vejo outros
carroceiros passarem com papelões assentados sobre o fundo de
suas carroças. Sou um concorrente, mas muitos me cumprimentam
com um aceno de mão. Sinal de boas-vindas de gente que sente
na pele o que é rodar, sob sol ou chuva, pilotando quilômetros
sobre duas rodas e duas pernas.
É hora de batalhar por mercadoria: arrisco pedir caixas em
supermercados. Mas todos já têm acordos com carroceiros. É
assim que meus "companheiros" vão delimitando o território e
garantindo o pão de cada dia. Chego à avenida Dr. Arnaldo todo
suado, com não mais do que cinco ou seis caixas encontradas ao
acaso.
Em seguida, passo pelo meu primeiro desafio. Para entrar na
rua Cardeal Arcoverde, sou obrigado a pegar as faixas da
esquerda da avenida Dr. Arnaldo, enfrentando várias filas de
automóveis. Para minha surpresa, ninguém buzina. Os motoristas
parecem acostumados.
É bom acelerar o passo - não é nada confortável andar
calmamente numa avenida tão movimentada. Ganhar velocidade
também pode ser perigoso. Quando a descida da rua Cardeal
Arcoverde principia sob as rodas, fica difícil frear. As
aflições crescem quando um motociclista tenta ultrapassar um
ônibus bem ao meu lado.
Passado o primeiro sufoco, uma gratificação: homens
descarregando produtos de um caminhão, em um supermercado,
deixam um rastro de papelão debaixo da carroceria. "Posso
pegar?", arrisco. O motorista diz que sim, e eu faço meu
primeiro carregamento de peso. Ainda assim, a carroça está a
meia-carga.
Sigo, com uns 10 kg a mais nas costas. Meu destino é a rua
Oscar Freire, nos Jardins. Lá começo a ziguezaguear pelas ruas
e alamedas repletas de lojas chiques. Mais papelão, aos
poucos, vai inflando meu carregamento. Mas sinto que o dia
está longe de render o mínimo para a subsistência de um homem
adulto.
Os tais pontos fixos citados pelos carroceiros são
fundamentais. Os acordos são fechados com lojistas, padarias e
supermercados. Escritórios doam papel. É bom ficar de olho em
obras, para pegar ferro dos entulhos.
Sem esquema, é preciso sorte. Na alameda Lorena, o segurança
de uma loja de roupa assobia para me oferecer uma carga. Da
garagem da loja, puxa uma Kombi repleta. Simpático e solícito,
ajuda na transferência do papelão para a carroça, enquanto
conta sobre o seu passado no Nordeste. Até que uma mulher
aparece à porta da loja.
Travam uma conversa rápida. Continuo ajeitando o papelão,
amarrando-o com cordas à carroça. O segurança vem até mim e
diz: "Vai embora, antes que ela dê cria".
Tento ser rápido, mas a bagagem está transbordando. Passo a
caminhar com 50 kg nas costas, sem contar o próprio peso da
estrutura. Nem é tanto, se comparado ao relato de um senhor,
que diz ter puxado até 500 kg entre as estações Luz e Armênia
do metrô.
A passos muito mais lentos, planejo um bom caminho para chegar
ao bairro de Pinheiros, onde vou vender meu carregamento. Em
vários momentos, o batimento cardíaco fica acelerado, chegando
a 178 por minuto. Pequenas subidas se tornam penosas. O cheiro
de resquícios de lixo e suor começa a se acentuar. Descanso na
praça Benedito Calixto.
Depois de uma hora de caminhada, chego, enfim, à porta do
sucateiro. São 13h30 e há uma fila de quatro carroças.
Funcionários empilham lixo reciclável de vários tipos, e um
rottweiler furioso late preso em um canil. À sombra dos
beirais de uma pequena casa, o chefe calcula o peso de cada
carregamento.
Uma carroceira chega, coloca seu material na balança e espera
o resultado. "Deu R$ 11", diz o homem de camisa para um
senhora, de uns 60 anos, que trouxe uma sacola cheia de
latinhas amassadas. Ela retruca: "Espera um pouco, ainda tem
meu papelão".
Chega a minha vez. Vou empilhando todo aquele material com
dificuldade. Consegui reunir quase 45 kg, mas calculo que mais
de 5 kg tenham sido desperdiçados pelo chão da sucataria, na
pressa imposta pelos funcionários.
Saio com R$ 7,20, o resultado de quase seis horas de trabalho.
O ganho diário médio de um carroceiro, segundo pesquisa da
prefeitura, é de R$ 6 a R$ 15. Mas eu esperava ganhar bem
mais, uma vez que o quilo do papelão é cotado a cerca de R$
0,40 no mercado da capital. Descubro que, ali, o quilo vale R$
0,16. O sucateiro ganha mais do que o dobro desse valor com a
revenda.
Almoço
Tal frustração tempera o almoço em um boteco na rua Fradique
Coutinho, com pratos a R$ 6,50, que correspondem a 90,2% da
minha renda retirada do lixo. Tem feijoada, o prato do dia.
Peço água da torneira, faço a refeição e volto à rua
indisposto e fisicamente esgotado. O estômago está pesado, o
corpo e a roupa, sujos. Sento em um degrau e espero uma hora
até o mal-estar passar.
Reúno forças para o trajeto que seria um dos mais difíceis
dessa jornada: a íngreme subida da rua Teodoro Sampaio, no
caminho de volta para o albergue.
São 15h40 quando começo a longa ladeira até a avenida Dr.
Arnaldo, onde os motoristas não parecem nada pacientes. Não
bastasse o peso da carroça, a fumaça vem de todos os lados. Os
olhos começam a arder muito.
Meia hora depois, já no topo do percurso, a oferta de um rapaz
me soa como piada: ele quer me doar um sofá de dois lugares,
com dois furos, segundo ele próprio. O esgotamento físico me
impede de aceitar, mas agradeço.
Na descida até o Bom Retiro, começa a chover forte. A chuva
traz certo alívio. Ameniza o calor. A cortina d'água parece
barrar a poluição dos escapamentos. O sol volta a dar as caras
no fim da rua Consolação. Chego à beira da cama exausto às
18h30, depois de percorrer 17,4 km. Sinto muita dor nas
pernas, sobretudo no joelho.
O cigarro
Cumpro o ritual: deixar a carroça em frente à cama, banho,
comida, televisão. Até me dar conta de um universo à parte. O
jardim do albergue se transforma em sala de estar, freqüentada
pelos fumantes.
O diálogo é descontraído. Dois senhores sentados, fumando. Um
deles, com uma revista feminina no colo, pensa alto: "Revista
Cláudia de agosto... Será que é agosto que já passou ou agosto
que vem?" Um silêncio dá a deixa para eu entrar na conversa.
Segue um papo sobre materiais recicláveis e dinheiro. Depois,
o assunto é "balada". Um dos senhores cita a "casa Meia Nove".
Um prostíbulo, possivelmente. Falam sobre "os nóias", se
referindo aos usuários de crack da região. Até que o senhor
que está lendo a revista resolve avaliar suas experiências
dentro do albergue. "Quem se acomoda, se ferra".
Ele já foi mandado embora uma vez: "Chegava bêbado. O
segurança não me deixava entrar. Daí eu falava pra mim mesmo
'então, vou tomar mais uma'". Hoje, ele dá razão à assistente,
a quem chama de "psicóliga": "Ela toma decisões que ajudam a
gente". Apago o cigarro e vou dormir. Noite quente, com muito
mosquito.
Terceiro dia
Levantar não é difícil. Mas as dores no joelho persistem. Ao
acordar, sou convidado a participar de uma reunião com outros
30 colegas. A administração do albergue está tentando
organizar uma cooperativa. Saio às ruas por volta das 10h com
a intenção de fazer um trajeto mais ameno, uma atitude
prudente, já que meu corpo não está preparado para uma função
que a priori seria de um cavalo.
Só que quase todos os caminhos levam para alguma ladeira. Dou
uma volta pelos calçadões nos arredores do Teatro Municipal,
depois o viaduto do Chá, o largo São Francisco e, finalmente,
a avenida Brigadeiro Luís Antônio. Sinto que o corpo está mais
acostumado. Agora, o trânsito não assusta tanto. Quando
buzinam, o negócio é ignorar o motorista e tocar em frente.
Atravesso a avenida Paulista, pego a alameda Santos e sigo
para a Vila Mariana, onde continuo recolhendo papelão. Dia
fraco, consigo meio carrinho. Não é o suficiente para ir até o
sucateiro. Resolvo levar o material ao albergue, para vendê-lo
no dia seguinte. Na volta, mais chuva. Depois, sol. No
caminho, um flagrante: um ladrão de carros não se intimida com
minha presença. Na São Carlos do Pinhal, ele circula por entre
carros estacionados. A menos de 10 m, percebo que estava
forçando o porta-malas. O sujeito me vê, mas não interrompe a
ação.
Percorro 15,1 km no total. Volto ao albergue às 18h. Ajeito a
carroça, banho, TV e, agora, já incorporado à rotina, cigarros
e confissões. Um colega vem dizer que leva foice e facas
dentro da carroça para se defender dos roubos, freqüentes na
região. Já foi parado pela polícia, acabou em cana. Foi
viciado em crack, diz não ser mais. O irmão é traficante, o
pai era caminhoneiro.
Uma outra carroceira vem falar dos filhos pequenos e de sua
carroça que foi roubada. Conta que tem permissão para
continuar no albergue apenas pela condição de ser mãe. Já teve
de dormir na rua com "os dois meninos". Tem marcas de
queimadura pelo corpo. Quem também aparece é um jovem, de uns
30 anos, que se destaca no galpão por ter a maior carroça:
leva nas costas diariamente um trambolho de 4 m de extensão.
Diz que clientes fixos lhe doam material. Chega a fazer R$ 40
por dia, cinco vezes mais do que eu.
Outra carroceira se aproxima. Usa fone de ouvido plugado a um
tocador de MP3. Depois, um jovem negro, ex-presidiário, diz
que acompanha um amigo carroceiro na falta de uma carroça
própria. Reclama que toma batida da polícia quase toda semana.
"Matei? Sim, matei. Mas tô limpo há muito tempo. Já cumpri o
que tinha de cumprir e quero recomeçar do zero".
Um breve papo com o senhor que dorme na cama vizinha fecha a
noite. Homem mais velho, reservado, bem magro, de olhos
claros, com aparência de mais de 65 anos. Antes de dormir,
deixa os sapatos sempre no mesmo lugar. Suas roupas são muito
bem organizadas e limpas. Tem uma carroça larga que foi
construída por ele mesmo. "Mas tá muito velha", avalia.
"Quando vou almoçar, deixo largada, sem corrente, ninguém
leva".
Começou "nessa vida" há 30 anos e diz que, agora, a
concorrência não dá trégua. Não consegue pegar tanto peso
quanto antes. Faz parte de um grupo numeroso dentro do abrigo:
o dos que estão envelhecendo. Naquela quinta, um "nóia" veio
pedir papelão para fazer uma cama improvisada. "E eu vou dar
papelão pra noinha?", resmunga. Depois, ele se vira e dorme.
Faço o mesmo.
Último dia
No dia seguinte, pego a carroça às 7h30. Tenho planos de
conseguir encher o carrinho até a boca e vender o carregamento
no sucateiro da Barra Funda. O grande obstáculo imposto pela
viagem é passar pelos viadutos que fazem a transposição sobre
os trilhos da CPTM. São cenários de atropelamentos, segundo
contam vários carroceiros.
Antes, consigo juntar mais papelão em Higienópolis. A carroça
volta a ficar pesada quando passo por uma padaria. Dando uma
de esperto, o gerente se livra de caixas de ovos estragados.
Só percebo mais tarde por conta do cheiro. Sou obrigado a
parar na primeira lixeira para jogar fora os ovos. O odor
permanece.
O ponto mais crítico se aproximava: o viaduto que liga as
avenidas Pacaembu e Marquês de São Vicente. Espero o sinal
abrir rente à faixa de pedestres com um frio na barriga.
Arranco com a carroça, procurando ser veloz e cuidadoso, mas
não ultrapasso os 10 km/h.
Além da alta velocidade dos carros, existe um ponto logo
depois do topo do viaduto, no começo da descida, em que o
carroceiro entra numa zona cega. O motorista que ainda está na
parte em aclive não consegue vê-lo bem. Os carros desviam
muito próximos. O mesmo acontece em passagens escuras, sob
pontes e túneis.
Tanto o risco para os motoristas quanto para os carroceiros
poderiam ser evitados se houvesse regulamentação no código de
trânsito. Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET)
não existe estudo ou levantamento que possa apontar possíveis
prejuízos causados ao trânsito em razão da circulação de
carroceiros na cidade.
Nessa terra de ninguém, chego incólume à Barra Funda para
vender ao sucateiro outros 40 kg de papelão, resultado de dois
dias de peregrinação. Quem me recebe é uma mulher: R$ 6,40 vão
para o meu bolso, para cobrir as despesas de mais um almoço.
De novo, só consigo R$ 0,16 por quilo. O atravessador vai
revendê-lo por R$ 0,40, uma margem de lucro de 150%.
Estou nos momentos finais da reportagem. Ando mais
tranqüilamente pelas ruas do Bom Retiro e, no caminho, vou
encontrando vários outros carroceiros. Todos erguem a mão, me
cumprimentando. Retribuo, mais como um adeus do que como um
aceno.
Volto às 16h para o albergue para pegar minhas coisas. Passo
quase uma hora batendo papo com um segurança. Ele conta que é
um período de tranqüilidade no albergue. Já houve casos de
briga e alberguistas chegando "alterados". Entrego a chave do
armário junto com os lençóis. Alguns dos que passam por lá nem
isso fazem. Simplesmente desaparecem.
É o momento de me despedir do personagem carroceiro. Deixo a
carroça numa garagem, após percorrer 16,7 km. Somadas as
andanças dos três dias de trabalho, percorri exatos 49,2 km.
Desta experiência fica este relato, um testemunho de quem
sobreviveu a 72 horas na pele de um homem-cavalo. Um trabalho
movido a suor e esperança, em meio ao lixo e ao asfalto,
contando com a camaradagem de homens e mulheres que me
receberam como um igual.
Minha vida como excluído
"Foi de barba cerrada e roupas puídas que deixei minha casa
por quatro dias para realizar esta reportagem. Com outra
roupagem que não a de um carroceiro, a distância entre os dois
mundos permaneceria inabalada.
O objetivo era me aproximar daquele universo para colher
histórias e retratar com fidelidade tal rotina. Por isso, no
albergue e nas ruas sempre me identifiquei como Gustavo, mas
não como jornalista. Em nome da confiança, as identidades dos
personagens foram todas preservadas. Afinal, as pessoas com
quem convivi falavam com um colega e não com um repórter.
Foi somente me misturando a eles que pude ver, ouvir e sentir:
mexer no lixo alheio pega fundo na auto-estima, principalmente
quando sobe um cheiro de dejetos. Mesmo que, no terceiro dia,
eu tenha experimentado a chance de me habituar ao serviço.
Tornar-se um trambolho atrapalhando as vias também é questão
de costume. A polícia passou fazendo piada, ou humilhando, não
sei direito. Ignorar o mundo que te ignora é o melhor a ser
feito. Ou sua única chance, no momento. Que buzinassem alto.
Vários carroceiros dizem que estão no ramo por opção. Dá
dinheiro e não há chefia. Posso atestar o prazer de navegar
sem bússola, mesmo nos dias em que o mar não está para peixe.
E há várias outras coisas gratificantes costurando a malha que
os envolve. Mas a palavra 'opção' eu recusaria.
Principalmente porque deu raiva do sucateiro que comprou meu
dia de trabalho por míseros R$ 7. Também quis vomitar na
mulher que pediu para um segurança me tocar da porta da sua
loja chique. Justo eu, que ia carregar seu lixo para longe
dali.
E um amigo distante, desavisado, ao me ver puxando uma
carroça, teve de ouvir do namorado, 'Você conhece o cara da
carroça?'.
Sentir-se excluído e provar dessa amargura talvez seja o ponto
mais alto que cheguei na tentativa de ser um carroceiro. Pois,
nem ao ouvir o trem passar à beira do albergue, durante a
noite, dormindo ao lado de vários deles, consegui me igualar a
quem reúne tanta força para deslocar a própria vida em busca
de uma existência minimamente digna".
Um esforço sobre-humano
"De uma maneira geral, não é aconselhável que uma pessoa
carregue mais do que 10% de seu próprio peso. Um homem de 80
kg poderia levar consigo cerca de 8kg. Claro que uma carroça,
no plano, muitas vezes não representa o peso da carga que está
sendo puxada. A força maior é feita no arranque, e uma força
menor é exigida para manter o movimento.
É em subidas que o peso se torna um problema maior. O
carroceiro, ali, tem que dosar o carregamento de acordo com
seu condicionamento, fazendo paradas conforme seu próprio
preparo. Com pico de 178 batimentos cardíacos por minuto, o
repórter, que tem 30 anos, chegou perto de atingir o máximo da
capacidade de seu coração, estimada em 190 batimentos por
minuto. Isso pode deixá-lo extenuado.
Assim, é aconselhável que o carroceiro realize um trabalho de
resistência, andando devagar para ir longe. Numa comparação
com maratonistas, são os mais velhos que geralmente têm melhor
performance, pois, com a experiência, aprendem a dosar o gasto
de energia.
Inflamação dos tendões e das articulações são problemas
possíveis para quem se submete a esse tipo de esforço físico,
que utiliza muita força. Dietas com balanço calórico negativo,
somadas ao esforço e ao estresse, também podem resultar em
cansaço, insônia, depressão do sistema imunológico, entre
outros problemas.
A longo prazo, se submetido constantemente à poluição, o
carroceiro também pode sofrer de doenças pulmonares e
cardiovasculares".
Fonte: Gustavo Fioratti (Revista da Folha)