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De quem é a responsabilidade afinal?
Por Juliana
Benchimol, para a ComCiência |
Não é por acaso que os personagens de Luís Fernando Veríssimo,
em sua crônica Lixo (do livro O analista de Bagé), revelem os
hábitos e personalidades do vizinho ao admitirem que vasculham
o lixo um do outro. Todos os dias cada brasileiro produz, em
média, cerca de 1kg desses resíduos, que desaparecem no
momento que são colocados na porta da rua e que revelam muito
sobre nós. Ao menos ao que diz respeito a abstenção de
responsabilidade sobre o seu destino. Como lembra o educador
ambiental e consultor da Associação Ecológica Ecomarapendi,
Eduardo Bernhardt, “a responsabilidade (em relação ao lixo)
começa a partir do momento de decisão da compra”.
Especialistas afirmam que ainda há uma deficiência na visão
política quando o assunto é tratado pela mídia e que novas
medidas serão necessárias para que a população possa ser
crítica o suficiente e compreender as principais problemáticas
socioambientais, desde a origem até o destino dos resíduos –
processo chamado pelo físico teórico e escritor, Fritjof Capra,
de pensamento sistêmico. Ações efetivas, como a redução da
produção de lixo doméstico, nasceriam a partir desta
compreensão, neste caso: de onde vem o produto e para onde vai
o resíduo.
No Brasil, mais de 200 mil toneladas de lixo são geradas todos
os dias, dos quais 76% são lançados a céu aberto e, de acordo
com a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e
Ambiental, uma ínfima parcela de 3% dos municípios cuida de
seus resíduos de forma adequada.
E essa prática se estende também aos governos, que não estão
sujeitos a medidas legais que os obriguem a destinar, de
maneira apropriada, o lixo que geram, a exemplo da implantação
de aterros sanitários, ainda insuficientes diante da
quantidade de lixões (leia reportagem sobre o tema). Nas
palavras de Eduardo Bernhardt “a única vantagem que nosso lado
otimista pode ver é que no meio dessa confusão, conseguimos
definir que o melhor mesmo é a solução dos 3Rs – reduzir,
reaproveitar e reciclar. E só.”
A maioria das cidades ainda está conhecendo a coleta seletiva,
afirma Bernhardt, para depois pensar se a implanta ou não, com
receio de que seja caro demais. Em 2000, apenas 451 municípios
realizavam coleta seletiva, segundo dados da Pesquisa Nacional
de Saneamento Básico (PNSB), e, mesmo assim, ela não ocorre no
município todo. “Se o país adotasse uma Política Nacional de
Resíduos Sólidos, ao menos teríamos diretrizes gerais de como
encarar o problema do lixo com vistas a resolvê-lo,
aumentaríamos os incentivos para a indústria de reciclagem, às
cooperativas e catadores, mas, principalmente, poderíamos
balizar o caminho com a educação como grande orientadora do
processo”, defende Bernhardt. Nesse panorama, a coleta
seletiva entra como coadjuvante. “Ela chegou primeiro, mas é a
última solução por ordem de racionalidade, praticidade, custo
e eficiência”, completa.
As pessoas, no entanto, já começam a olhar o lixo como um
problema que podem ajudar a resolver. Segundo o educador
ambiental, é uma evolução lenta e silenciosa, mas que está
acontecendo. Pouco a pouco as instituições adotam práticas de
redução e reaproveitamento. Há muitas iniciativas como o Mesa
Brasil, do Serviço Social do Comércio (Sesc), para difundir
técnicas de aproveitamento integral de alimentos. Nas escolas
municipais de Campinas (SP), muitos professores incentivam a
criação de hortas e utilizam os restos das merendas para
compostagem e adubo, para reaproveitar a matéria orgânica, que
corresponde 60% de todo lixo doméstico produzido. As
merendeiras fazem nas escolas, e as crianças levam o exemplo
para casa.
Para Oscarlina Scaleante, geógrafa e coordenadora do programa
de educação ambiental da secretaria municipal de educação de
Campinas (SP), um ensino básico de qualidade é o melhor
investimento para resultados surpreendentes. “Educação é a
palavra-chave. As escolas têm um papel fundamental na formação
do cidadão consciente”, ressalta ela. O programa de educação
ambiental em Campinas foi criado em fevereiro de 2007 e já
apresenta bons resultados. “Embora as escolas ainda não
estejam integradas, a maioria delas já promove ações com foco
em educar o aluno para as questões ambientais, como a
separação de lixo, pesquisa e trabalhos inseridos nos planos
pedagógicos, de acordo com a realidade de cada um”, completa.
Scaleante lembra que já existem algumas iniciativas que são
voltadas para a população, como o oferecido pelo Departamento
de Limpeza Urbana de Campinas (DLU), que propõe visitas aos
lixões da cidade, chamado Lixotur. “Esse é um importante
trabalho de conscientização já que nos leva à reflexão do
quanto ainda precisamos rever nossas práticas”, afirma.
Outro sinal de mudança está presente na questão que envolve o
uso de sacolas plásticas e que ilustra bem o uso e
reaproveitamento de outros materiais que vão parar na lata do
lixo. As prestativas sacolas dos supermercados, bancas de
revistas, locadoras de vídeo, padarias e farmácias, já
representam 9,7% de todo o lixo doméstico do país e levam cem
anos ou mais para se decompor na natureza. São cerca de 210
mil toneladas anuais, ou mais de um bilhão de sacos plásticos,
sendo que cerca de 90% deles viram lixo em até 6 meses após a
compra e vão parar nos lixões, entupir as redes urbanas de
drenagem, ou o leito dos rios.
A busca por alternativas que solucionem, a médio e longo
prazo, o descarte do plástico na natureza tem levado entidades
públicas e privadas a lançarem campanhas de conscientização do
consumidor. Um dos exemplos é a campanha “Eu não sou de
plástico”, adotada em agosto de 2007 pela prefeitura de São
Paulo, para minimizar o uso das sacolas plásticas. Algumas
redes de supermercados também aderiram a campanha, oferecendo
sacolas retornáveis aos consumidores, como o faz o Pão de
Açúcar e algumas unidades do Carrefour. Um acordo também foi
firmado em fevereiro deste ano, entre a indústria do plástico
e os supermercados, que estabelece o compromisso de produzir e
distribuir sacolas mais resistentes.
No governo paulista, a assembléia discute um projeto de lei
que obriga as empresas que produzem e comercializam água
mineral, refrigerantes e outras bebidas, a abolir o uso das
garrafas plásticas, conhecidas como PET, num prazo de seis
anos. Fabricantes de cerveja que passarem a utilizar o
plástico antes da medida entrar em vigor terão um ano para se
adequarem à lei. Na contra-mão, estão os planos de se
comercializar cerveja em embalagens de PET. A única proteção
vigente contra esta invasão é um a liminar, resultante de uma
ação civil movida pelo procurador da República, Jefferson
Aparecido Dias, concedida em 2002, que condiciona a fabricação
de cerveja em PET em todo o país a um Estudo do Impacto
Ambiental (EIA) e a um Relatório de Impacto Ambiental (Rima).
André Vilhena, diretor executivo do Compromisso Empresarial
para Reciclagem (Cempre), lamenta o fato e enfatiza que “a
indústria brasileira de reciclagem não tem infra-estrutura
para suportar a entrada em circulação de uma torrente de
embalagens PET”.
“Tudo que consumimos pode ser bem ou mal aproveitado”, lembra
o educador ambiental Eduardo Bernhardt. O problema, segundo
ele, não é usar, “mas sim o mau uso que se faz”.
Plástico sustentável
Para atender à demanda do público consumidor por materiais
ecologicamente corretos, a indústria começou a se mexer e já
há sinais de avanços. O plástico oxibiodegradável é uma das
novidades disponíveis e, embora ainda desconhecido da grande
maioria da população, vem sendo utilizado por mais de 100
empresas no Brasil. O fabricante garante que o material agora
leva de seis meses a dois anos para se decompor. A tecnologia
foi desenvolvida por uma indústria inglesa chamada Symphony e
é distribuída em território nacional pela RES Brasil.
De acordo com Nivaldo Bósio, diretor comercial da RES Brasil,
detentora da tecnologia, o oxibiodegradável é aprovado pela
Comunidade Européia e pela agência de controle de alimentos e
medicamentos norte-americana (FDA) para contato com alimento,
mas ainda aguarda aprovação da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa). A grande vantagem do novo plástico,
segundo Bósio, é que “ele aumenta a vida útil dos aterros
sanitários pelo seu período curto de decomposição”. Mas ainda
restam dúvidas, s egundo parecer do Departamento de Controle
Ambiental da Secretaria do Verde em São Paulo, sobre a real
degradação deste material em termos químicos e bioquímicos. A
suspeita é de que o material não atenda aos padrões de
certificação internacionais ( como os selos da European
Bioplastic, BPS do Japão e BPI dos EUA) e que os aditivos
contenham metais pesados, com risco de contaminação do solo e
dos lençóis freáticos, o que também poderia ser ocasionado
pelos resíduos de tintas e pigmentos. Por este motivo, no ano
passado a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo
vetou o projeto de lei que obrigava os comerciantes a
utilizarem sacolas plásticas produzidas com compostos
oxibiodegradáveis.
“Vivemos um momento de questionamento sobre a longevidade das
reservas energéticas e apesar dos plásticos consumirem apenas
4% de toda a demanda atual de petróleo, a preocupação em se
buscar fontes renováveis é crescente”, afirma Letícia
Mendonça, gerente de especialidades estirênicas da Basf,
empresa química produtora do chamado plástico c ompostável,
obtido a partir do milho .
Emplacando ou não, as novas tecnologias precisam de apoio,
tendo em vista o poderoso lobby da indústria do petróleo, que
sustenta o plástico atual. A prestação de contas das metas
sociais e ambientais pelas empresas é uma tendência
irreversível. Foi o que apontou a última pesquisa realizada
pelo Guia Exame de Sustentabilidade, atualmente o maior
levantamento de responsabilidade social do país. A ameaça do
aquecimento global elevou definitivamente o tema ao centro do
debate público em todo o mundo e já permeia com vigor a esfera
corporativa.
Além da necessidade de adequação às normas de certificação
ambiental, como as estabelecidas pelo ISO 14001, hoje existem
sistemas mensuráveis para quantificação do desempenho das
empresas em sua atuação socioambiental. Aspectos ambientais
são incorporados às empresas, por exemplo, em sua gestão de
risco nas mais diversas áreas do negócio. Uma das mudanças
mais emblemáticas é a ligação entre os indicadores
relacionados a aspectos ambientais e sociais e a remuneração
dos executivos. Essa adoção implica um novo padrão cultural.
Diante deste cenário, as empresas têm adotado políticas
sustentáveis para adaptar seus negócios aos novos tempos.
Através da reciclagem de plástico e papel, por exemplo,
algumas empresas investem na compra de produtos, como remédios
e cestas básicas, para os funcionários. Outras conseguem
reciclar os resíduos industriais e usar como matéria prima em
outras etapas de produção, ou estabelecem metas de redução de
consumo de papel. Uma prática que vem se tornando comum é a
coleta de óleo de cozinha, que pode ser transformado em
biodiesel e, ao mesmo tempo gerar renda para as pessoas que o
recolhem. A exemplo do Banco Real, que adotou a medida em 2007
e hoje já contabiliza 500 litros recolhidos por mês.
Mudança de modelo
Projetos de lei que obrigam o comércio a substituir as sacolas
de plástico por sacolas de papel já foram votados
anteriormente e rejeitados pela Comissão de Economia,
Indústria e Comércio, sob o argumento de que a melhor solução
é taxar as sacolas e garrafas plásticas, exceto as fabricadas
com material reciclado, a fim de desestimular economicamente o
seu uso excessivo. Flávio Gordon, arquiteto e presidente da
Associação Novo Encanto de Desenvolvimento Ecológico, alerta
para os riscos da "plasticomania" que tomou conta da
civilização contemporânea nas últimas décadas. “O Brasil tem
avançado com a reciclagem, pois ela responde a uma questão
econômica”, lembra, “mas além do esforço de mercado, deve
haver uma consciência social, afinal, plástico reciclado se
transforma... em outro plástico”, acrescenta. Já André Vilhena,
diretor executivo do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre),
acredita que não há motivo para alarde se a indústria do
plástico se mantiver nos padrões atuais de produção, pois a
reciclagem tem atendido à demanda.
O Conselho do Estado da China declarou guerra oficial contra
os sacos plásticos, banindo-os e recuperando as antigas
sacolas de pano. As sacolas plásticas não poderão mais ser
produzidas ou comercializadas a partir de 1º de junho deste
ano, dois meses antes do início das Olimpíadas. Mas há outros
exemplos de leis que desencorajam o uso de sacos plásticos,
como em partes da África do Sul, Irlanda e Taiwan, onde as
autoridades taxam consumidores que usam sacos plásticos ou
taxam as companhias que os distribuem; em Bangladesh,
vilarejos remotos no Alasca e em São Francisco (EUA), onde
eles foram proibidos em supermercados; ou no Reino Unido, onde
o consumidor é incentivado a reduzir o consumo das sacolas
através de uma bonificação pelo número de vezes que as usam
novamente no estabelecimento.
Gordon acredita que “o poder público tem que dar exemplo,
fazer separação de seus resíduos e deve incentivar e legislar
em favor da redução do consumo”. Sua única ressalva é a de que
estas e outras novas medidas são favoráveis ainda num modelo
de desenvolvimento insustentável. “Este modelo é que tem que
mudar”, conclui.
Fonte:
Envolverde
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