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Resíduo eletrônico: redução,
reutilização, reciclagem e recuperação
Por Simone
Pallone, para a ComCiência |
Projeções da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e
Eletrônica (Abinee) apontam um crescimento de 18% na produção
de telefones celulares em 2008, devendo atingir 78 milhões de
unidades. Em 2007, foram produzidos 66 milhões de aparelhos. A
popularização dos eletroeletrônicos e a rápida obsolescência
dos modelos, cria o mito da necessidade de substituição, que
se torna quase obrigatória para os aficionados em tecnologia e
para algumas profissões específicas. No entanto, o descarte
desenfreado desses produtos tem gerado problemas ambientais
sérios, pelo volume, por esses produtos conterem materiais que
demoram muito tempo para se decompor – a como o plástico,
metal e vidro – e, principalmente, pelos metais pesados que os
compõem, altamente prejudiciais à saúde humana. Além disso,
faltam regras claras e locais apropriados para a deposição
desses equipamentos que, em desuso, vão constituir o chamado
lixo eletrônico ou e-lixo.
Faz parte desse grupo todo material gerado a partir de
aparelhos eletrodomésticos ou eletroeletrônicos e seus
componentes, inclusive pilhas, baterias e produtos
magnetizados. Mercúrio, chumbo, cádmio, manganês e níquel são
alguns dos metais pesados presentes nesses aparelhos. Na
soldagem de computadores, por exemplo, usa-se chumbo; no visor
do celular, mercúrio. Nas pilhas, usa-se índio (In) – metal
parecido com o zinco – e manganês, depois que foram abolidos o
cádmio e o mercúrio, que são mais tóxicos. Esses elementos
abolidos no Brasil ainda são encontrados em pilhas que entram
no país pelo mercado negro. Quando as pilhas e os equipamentos
eletroeletrônicos são descartados de forma incorreta, no lixo
comum, que segue para aterros sanitários, essas substâncias
tóxicas são liberadas e penetram no solo, contaminando lençóis
freáticos e, aos poucos, animais e seres humanos, podendo
provocar efeitos como os mostrados na relação abaixo*.
Substância: Mercúrio
Tipo de contaminação: Inalação e toque
Efeito: Problemas de estômago, distúrbios renais e
neurológicos, alterações genéticas e no metabolismo
Substância: Cádmio
Tipo de contaminação: Inalação e toque
Efeito: Agente cancerígeno, afeta o sistema nervoso, provoca
dores reumáticas, distúrbios metabólicos e problemas
pulmonares
Substância: Zinco
Tipo de contaminação: Inalação
Efeito: Provoca vômitos, diarréias e problemas pulmonares
Substância: Manganês
Tipo de contaminação: Inalação
Efeito: Anemia, dores abdominais, vômito, seborréia,
impotência, tremor nas mãos e perturbações emocionais
Substância: Cloreto de Amônia
Tipo de contaminação: Inalação
Efeito: Acumula-se no organismo e provoca asfixia
Substância: Chumbo
Tipo de contaminação: Inalação e toque
Efeito: Irritabilidade, tremores musculares, lentidão de
raciocínio, alucinação, insônia e hiperatividade
E o volume desse lixo no mundo já é assustador. No final do
ano passado, a estimativa do grupo ambientalista Greenpeace já
era de cerca de 50 milhões de toneladas. No Brasil, não se tem
estimativas, mas o país segue a tendência mundial com o tempo
médio de substituição de telefones celulares e computadores,
bastante próximo dos países desenvolvidos: 3 anos para
aparelhos celulares e 3 a 5 anos para uso comercial de
computadores, segundo informações da Abinee. Os computadores
substituídos nesse período são os usados em atividades fins
das empresas; após esse tempo, são substituídos por novos e
passam a ser usados por mais uns dois anos em outras
atividades, como controle de estoque ou recepção, sendo
posteriormente doados para instituições de caridade ou para
projetos educacionais, na maioria das vezes.
A equação é difícil de resolver, uma vez que a tecnologia veio
para ficar, os eletroeletrônicos e eletrodomésticos são
sinônimo de melhoria da qualidade de vida das pessoas, que
economizam trabalho manual, deslocamento, tempo na realização
de suas atividades; e para funcionar, todo aparelho
eletroeletrônico tem em sua constituição algum metal pesado,
usado para conduzir a corrente elétrica, como explica a
professora de química Maria Lúcia Pereira da Silva, do
Laboratório de Sistemas Integráveis, da Escola Politécnica da
USP. O problema é que os metais pesados são persistentes mesmo
em quantidades muito pequenas, e contaminam áreas muito
extensas. Um antigo computador 286, por exemplo, com 1600
pontos soldados, que correspondem a 4 gramas de solda de
chumbo, pode levar à contaminação por arraste, uma área de 600
metros cúbicos de solo, que exigirá posteriormente a
remediação, além de exposição desnecessária de trabalhadores e
consumidores.
A tecnologia ainda não avançou o suficiente para que essas
substâncias sejam dispensáveis nos aparelhos. O que propõem
cientistas, ambientalistas e legisladores, de diferentes
formas, é que se procure reduzir, reciclar, reutilizar e
recuperar energia. Silva lembra que a maior parte dos metais
mais importantes já foi extraída da natureza. Além disso, nos
eletroeletrônicos, esses metais se encontram em uma
concentração muito maior do que estavam na natureza e em um
estado de purificação até mais rigoroso que na indústria
farmacêutica em alguns casos. Essas razões mais do que
justificam que eles sejam reciclados dos equipamentos em
desuso para serem aproveitados nos novos. Esta é, segundo a
professora da USP, a forma de fechar o ciclo de um setor de
eletroeletrônico, reutilizando recursos naturais não
renováveis e que têm um custo muito alto, afinal, trata-se de
ouro, prata, cobre, ferro, alumínio, que não podem ser
desperdiçados por questões ambientais e também econômicas.
O fator econômico pode ser o que impulsiona as empresas a
adotarem medidas mais ambientalmente corretas nesse sentido,
tanto na economia de recursos para confeccionar seus produtos
quanto na competição para conquistar o consumidor mais
consciente e exigente. E cada vez mais, o apelo da consciência
ambiental tem servido para isso. O Greenpeace, desde agosto de
2006, divulga a cada quatro meses o Guia de Eletrônicos
Verdes, indicando os fabricantes que demonstram maior
preocupação com a sustentabilidade do sistema, que têm
programas de recolhimento de aparelhos descartados (celulares
ou pelo menos as baterias, por exemplo), que usem menos
substâncias tóxicas na produção, que substituam materiais por
outros menos poluentes ou tóxicos. A última edição do guia foi
divulgada em novembro, e passou a incluir empresas que
fabricam consoles de jogos eletrônicos e TVs.
Segundo notícia divulgada no site da ONG, “muitas empresas já
conseguiram melhorar bastante seus produtos e programas de
reciclagem desde o início da elaboração do guia, mas nenhuma
delas ainda conseguiu oferecer uma linha inteira de produtos
livres das piores substâncias químicas tóxicas ou um programa
de reciclagem simples, gratuito e global para assegurar que
aparelhos que não mais funcionam não sejam jogados em lixões
de países em desenvolvimento como China ou Índia, como é feito
atualmente. E o lixo eletrônico vem se acumulando numa
velocidade impressionante nos dias de hoje”.
Outra razão que leva os fabricantes de eletroeletrônicos a
encararem a política de redução, reutilização, reciclagem e
recuperação energética são as legislações impostas por alguns
países ou blocos de países. Em 2005, foram publicadas duas
diretivas importantes na União Européia. A primeira determina
que: 1) todos os fabricantes que vendam equipamento elétrico e
eletrônico nos e para os países da UE coloquem etiquetas no
equipamento para informar os clientes de que este deve ser
reciclado e 2) certifiquem-se de que os respectivos produtos
são devidamente eliminados ou reciclados após o ciclo de vida.
A segunda exige que os fabricantes eliminem ou minimizem a
utilização de chumbo, mercúrio, cromo hexavalente, cádmio,
éteres de bifenilo polibromado e difelino em equipamento
elétrico e eletrônico vendido na UE após 1 de julho de 2006.
No Brasil, as leis ainda não são tão rigorosas, mas como
lembra o diretor da área de meio ambiente da Abinee, Jaime
Cynamon, a maioria dos fabricantes de eletroeletrônicos no
Brasil é multinacional e segue as normas das matrizes que, por
sua vez, seguem essas diretrizes internacionais. Quanto aos
fabricantes menores ou apenas fornecedores da cadeia
produtiva, para participarem do mercado, também são obrigados
a seguir essas normas internacionais, pois, caso não atendam
esses requisitos, não conseguem fornecer seus produtos.
Mas Cynamon lembra que o Brasil está muito descuidado com a
legislação sobre essas questões. A Política Nacional de
Resíduos Sólidos está tramitando desde 1991 na Câmara. Seguiu
para apreciação em setembro passado, tendo recebido adendos,
com atenção especial para o lixo eletrônico.
No momento, a única lei que trata de recolhimento de material
eletrônico no Brasil é a Resolução 257, do Conselho Nacional
do Meio Ambiente (Conama), de 1999, que atribui aos
fabricantes ou importadores de pilhas e baterias a
responsabilidade pelo gerenciamento desses produtos
tecnológicos que necessitam de disposição final específica, em
função do perigo e dos níveis de metais tóxicos que eles
apresentam e que podem causar danos ao meio ambiente e à saúde
pública. Mesmo assim, o índice de recolhimento ainda está
longe do satisfatório, mesmo com a ampliação de postos em
bancos e supermercados. E esse recolhimento é importante
porque as pilhas e baterias são recicladas e reaproveitadas.
Sustentabilidade
A idéia da sustentabilidade é partilhada por Júlio Carlos
Afonso, professor do Departamento de Química Analítica da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que diz que 94%
dos componentes dos computadores podem ser reciclados, podendo
ser recuperados por desmonte e segregação dos componentes
principais. Os 6% não recicláveis, segundo ele, correspondem a
componentes que contêm uma grande junção de materiais de
natureza química e física bastante diversa (metais, polímeros,
soldas, resinas), como no caso dos circuitos impressos, que
dificultam o reaproveitamento.
Afonso lembra que a existência de cerca de 30 elementos da
tabela periódica num computador leva as empresas a investirem
em tecnologias que visem projetar máquinas (e mesmo outros
produtos eletroeletrônicos) que consumam cada vez menos
elementos tóxicos e que sejam mais fáceis de serem desmontadas
para a reciclagem, tal como ocorre hoje com a televisão e com
o automóvel. “Há projetos em andamento em várias partes do
mundo, tanto em nível acadêmico como aplicado. O maior desafio
é tratar os 6% dos materiais hoje reconhecidamente não
recicláveis por não existirem rotas economicamente viáveis de
processamento de um material resultante de uma mistura tão
complexa de elementos”, diz ele.
A Organização das Nações Unidas (ONU) fez um estudo
recentemente mostrando o impacto ambiental destrutivo dos
componentes dos computadores. As pressões de organismos
internacionais como a ONU vêm desafiando os países a
elaborarem políticas de reciclagem de computadores antigos e o
prolongamento de sua vida útil. “A fabricação de um computador
exige pelo menos dez vezes mais a sua massa em combustível
fóssil e produtos químicos. Um simples chip eletrônico, menor
que a unha de um dedo mínimo, exige 72g de substâncias
químicas e 32 litros de água para ser produzido”, revela o
pesquisador da UFRJ. Ele compara o eletroeletrônico com o
carro e a geladeira que, em sua fabricação, precisam de apenas
o dobro de sua massa em recursos naturais.
A necessidade de obedecer a rigorosas especificações de
tratamento, transporte e manuseio do lixo eletrônico estimula
pesquisas nesse sentido nos países desenvolvidos, segundo o
professor da UFRJ. “No Brasil e em outros países emergentes,
isso já não ocorre, como podemos constatar ao passar por
lixões e aterros em todo o país. Estamos ainda engatinhando
para despertar na sociedade brasileira uma plena consciência
do desafio do lixo eletrônico ou e-lixo. O Conama parece não
ter uma legislação nem um grupo de trabalho que se ocupe do
lixo eletrônico”, diz ele .
Passo a passo
O primeiro passo do caminho para um sistema sustentável,
conforme ensina o professor da UFRJ, seria coletar
seletivamente o lixo eletrônico do restante do lixo,
encaminhando-o a cooperativas ou empresas que se dediquem ao
desmonte do material coletado para separação dos diversos
componentes – plástico, metais, contatos elétricos etc. Eles
devem ser reconhecidos e separados, etapa que exige algum
treinamento. Depois de segregadas as correntes, cada uma delas
segue uma destinação diferente, conforme sua natureza
(recicladora de plásticos, de metais etc, incluindo-se aqui a
destinação da fração não reciclável a locais apropriados).
Porém, ele ressalta que os entraves para seguir esse caminho
são inúmeros: falta de legislação pertinente, baixa
conscientização da população, falta de incentivos a atividades
de reciclagem nesse segmento (ao contrário do que ocorre com a
reciclagem das latas de alumínio, plásticos, papéis, etc),
logística de coleta complexa e cara, pesquisas fundamentais e
aplicadas ainda incipientes, e falta de visão de muitos
governos e sociedades frente ao problema do lixo eletrônico,
uma verdadeira bomba ambiental para “explodir” num futuro
incerto, explica, com certo desânimo frente à situação.
Mas o professor Júlio Carlos Afonso acredita que a pesquisa
científica e tecnológica pode ajudar a encontrar soluções que
permitam reciclar ou, pelo menos, tratar o lixo eletrônico de
modo a reduzir seus impactos ambientais. “É possível
desenvolver novos materiais que substituam metais pesados
tóxicos hoje formulados na fabricação de diversos componentes
do e-lixo, tornando ao mesmo tempo esse lixo menos tóxico e
mais facilmente reciclável”. Porém, ele acredita também que
nada disso pode fazer frente ao desejo compulsivo dos
consumidores de terem sempre a última palavra em matéria de
aparelhos eletroeletrônicos de última geração. “É a perfeita
cristalização de uma sociedade movida pelo consumo de forma
insustentável. Por isso, a educação e a consciência da
população para um consumo mais responsável precisam acompanhar
esse processo de desenvolvimento de processos e de produtos.
Mas creio ser um desafio tão forte quanto o do desenvolvimento
tecnológico de soluções para o e-lixo”, finaliza o professor
da UFRJ.
* Fonte: Antônio Guaritá e Denise Imbroisi, da UnB.
(Envolverde/ComCiência)
Fonte:
Envolverde
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