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Europeus tomam dianteira contra
aquecimento global
Enquanto
os Estados Unidos, o maior poluidor do planeta, se recusam a
aderir às iniciativas mundiais contra o aquecimento global, a
União Européia resolveu tomar a dianteira e, unilateralmente,
estabelecer compromissos ambiciosos de redução das emissões
dos gases que provocam o efeito estufa. Anunciada pelo
presidente da Comissão Européia, José Manuel Barroso, a
proposta de corte de 20% nas emissões até 2020 foi aprovada
pelos ministros do Ambiente da UE. Resta agora definir as
formas de atingir esse objetivo, que deverão variar de acordo
com a situação dos 27 países do bloco.
A iniciativa européia deverá intensificar a pressão sobre o
governo americano, interna e externamente. Vários Estados
americanos, mesmo os governados por republicanos, partido do
presidente George W. Bush, já aprovaram leis que aprimoram os
controles das agressões ao meio-ambiente, estimulam a economia
de energia, reduzem as emissões e incentivam o uso de
tecnologias alternativas. Grandes empresas americanas, em
atitude pouco usual, foram ao Congresso para pedir que os EUA
se engajem no combate ao aquecimento. As conclusões do Painel
Intergovernamental de Mudanças Climáticas traçaram um panorama
sóbrio e assustador do futuro do planeta se o aquecimento
global seguir a progressão atual. Mas os EUA sequer
ratificaram o Protocolo de Kyoto, cuja meta de corte das
emissões em 5,2% em relação ao nível de 1990, até 2012,
tornou-se tímida e insuficiente.
A União Européia está disposta, em princípio, até mesmo a
ampliar suas metas. Caso os demais países desenvolvidos também
resolvam adotar medidas para cortar em 20% as emissões de
gases nocivos, a UE poderá ter como alvo uma redução de 30%.
Não é uma tarefa fácil. A dificuldade em definir qual a cota
de restrições a cada país - o principal ponto de impasse nas
negociações globais - terá de ser enfrentada na escala menor
das 27 nações.
A Alemanha aceita assumir parcela maior da redução, enquanto
que os países do Leste europeu, ex-comunistas, deverão ter
margens maiores para poluir. Eles deram contribuição
importante depois que se tornaram economias de mercado, quando
seus níveis de emissão se reduziram bastante, mas voltaram a
subir depois. O governo polonês argumenta que a mudança de
regime trouxe um desaquecimento geral nas economias do
ex-bloco soviético, o que torna complexa a definição do ponto
de partida a ser tomado como base para a redução das emissões.
1990 - ano seguinte à queda do Muro de Berlim -, por exemplo,
teria sido um ano atípico.
O governo Bush escamoteou a pressão ambientalista ao propor um
corte de 20% no consumo de combustíveis no país até 2020 e a
aceleração do uso de energia alternativa, como o etanol à base
de milho. Como sempre nestas questões, Bush propõe pouca ação,
tarde demais. O princípio que norteia a redução é diminuir a
dependência do petróleo proveniente do politicamente explosivo
Oriente Médio. Depois, há sérias dúvidas sobre se o etanol é
capaz de cumprir este papel redentor. Se a função da energia
alternativa é substituir ao máximo possível o combustível
fóssil, o milho tem graves inconvenientes. Como apontou o
ex-secretário do Meio Ambiente, José Goldemberg, o ganho
ambiental do etanol extraído do milho é baixo. Para cada litro
obtido gasta-se quase outro litro de combustível fóssil na
forma de pesticidas, fertilizantes e energia para máquinas
utilizadas no plantio e colheita ("O Estado de S.Paulo", 20 de
fevereiro). Esta relação, no caso da cana-de-açúcar, base do
programa brasileiro, é de apenas um décimo de litro de
combustível para cada litro de etanol. E subprodutos, como o
bagaço, ainda podem ser usados na produção de energia.
A predominância dos democratas na Câmara e no Senado, a
pressão dos empresários e dos governadores e o estímulo dado
pelas decisões da União Européia podem forçar Bush a tornar-se
mais flexível nesta questão. A posição dos europeus pode
assegurar a continuação das ações de Kyoto em 2012 com um
ímpeto maior e mais abrangente. E o unilateralismo de boa
índole da UE é um exemplo de peso a mais para que China,
Brasil e Índia, que estão entre os países emergentes que mais
poluem, aceitem engajar-se em metas de redução de emissões,
das quais escaparam até agora.
Fonte: Valor Econômico - SP
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