Europa quer exportar pneus para o Brasil
O lobby pela regulamentação da
importação de resíduos sólidos vem também de fora do país. A
União Européia tem interesse em se desfazer de seus pneus
usados, já que uma lei proíbe que eles sejam depositados em
aterros sanitários
E está usando a Organização Mundial do Comércio (OMC) para
pressionar o Brasil, que por sua vez tem acionado
freqüentemente a entidade para combater os subsídios agrícolas
dos países europeus.
No caso do Brasil, apesar de a importação de bens usados ser
proibida por resoluções, 11 milhões de pneus usados entram no
país todo ano, com base em liminares judiciais – parte deles
vêm do Uruguai, em razão de decisão do Tribunal Arbitral do
Mercosul. A União Européia, que descarta 80 milhões de
carcaças de pneu por ano, briga na Organização Mundial do
Comércio (OMC) pelo direito de enviar suas unidades usadas
para o Brasil, como faz o Uruguai.
O Brasil é um farto mercado potencial para os pneus europeus.
O país possui a maior população e a maior frota de veículos
entre os países em desenvolvimento que proíbem a entrada de
pneus usados e reformados, informa o Ministério do Meio
Ambiente. Segundo o órgão, como o pneu não é biodegradável, a
importação aumenta o volume de resíduos e o passivo ambiental
no país. Além disso, viram lixo logo porque só podem ser
reformados uma vez.
O MMA argumenta que a regulamentação da importação favoreceria
apenas a União Européia, que deposita 80 milhões de pneus por
ano em aterros. "Por isso eles querem que o Brasil autorize a
entrada aqui", afirma o secretário executivo Cláudio Langone.
Na opinião da representante do Instituto Sócio Ambiental
(ISA), Adriana Ramos, a importação de pneus lembra "a pior
forma de colonialismo", em que os países europeus obrigavam
suas colônias a comprarem produtos que não lhes servia.
Para o deputado Ivo José (PT-MG), autor do projeto de
regulamentação, a idéia não é tornar o Brasil uma "lixeira".
Ele argumenta que alguns resíduos de processos industriais são
matérias-primas estratégicas no Brasil, pois o pneu pode ser
utilizado para fazer asfalto e de outras maneiras, desde que
no plano de gestão isso seja adequado. Outra razão alegada é o
barateamento do produto, permitindo o consumo por pessoas de
baixa renda.
Mas para o ISA, o problema vai além da destinação final. Com o
acúmulo de pneus, lembra o instituto, eles acabam virando
criadouro de mosquitos transmissores de dengue e febre
amarela. Segundo estudo realizado em 2003 pelo Ministério da
Saúde, os pneus eram o principal foco do mosquito Aedes
Aegypti em 284 dos 1.240 municípios pesquisados. Em 491, eram
o segundo foco e em 465, o terceiro.
"É importante que a sociedade procure saber o que está
acontecendo e quais são os prejuízos à saúde e ao meio
ambiente para que possam reivindicar que as empresas tenham
uma atitude correta de recolhimento desses pneus", avalia
Adriana Ramos, do ISA. Segundo ela, é necessário investir no
processo de recolhimento e em tecnologias para melhorar o
aproveitamento dos resíduos.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Pneus
Remoldados e da empresa BS Colway, Francisco Simeão, acredita
que a regulamentação seria importante para obrigar os
empresários a fazer o recolhimento. Segundo ele, muitos deixam
de fazê-lo por não haver uma legislação específica.
Setor Reciclagem
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