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A reciclagem e
seus percalços
O reuso tem uma característica peculiar,
que é o baixo a nulo consumo de energia e de insumos para sua
realização. Esta é a grande diferença frente à reciclagem.
por Júlio Carlos Afonso
Estamos acostumados a pensar que a reciclagem é a solução
perfeita para as questões ambientais que afligem a sociedade
moderna. Pura ilusão! Na verdade, dentro do famoso esquema dos
“3 erres” (reduzir, reusar e reciclar), a reciclagem vem na
última posição, isso mesmo, em último lugar. Como ponto de
partida, as pessoas que buscam uma conscientização ambiental
devem ter em mente que se deve tomar atitudes que reduzam a
demanda de matérias-primas para a fabricação dos mais diversos
artefatos; evitar o desperdício é uma delas, e das mais
acessíveis a todos.
Trata-se também de um grande desafio de ordem educacional e
cultural face à inserção das pessoas numa sociedade de consumo
e do descartável de hoje em dia. Além disso, existem soluções
tecnológicas que permitem a redução da quantidade de
matéria-prima necessária hoje à fabricação de um produto: por
exemplo, as latinhas de alumínio têm hoje menos 40% de massa
que suas congêneres de 30 anos atrás; em outras palavras,
consegue-se hoje fabricar mais latinhas com a mesma quantidade
de alumínio que nos anos 1970, sem prejuízo da qualidade do
produto.
Em segundo lugar, deve-se tentar empregar um determinado
produto usado em outra finalidade, evitando exatamente o
consumo de outros produtos ou matérias-primas. Um exemplo
típico desta prática, o reuso, está no reaproveitamento de
embalagens vazias, inclusive para finalidades diversas da
destinação original, o que dispensa a compra de embalagens
novas. O reuso tem uma característica peculiar, que é o baixo
a nulo consumo de energia e de insumos para sua realização.
Esta é a grande diferença frente à reciclagem. Quando o
material não tem condições de reutilização (como no caso de
uma embalagem de vidro quebrada), aí sim lança-se mão da
reciclagem. Nela, consomem-se energia e insumos (água,
trabalho de pessoas, etc) para transformar o produto usado em
novos artigos, inclusive diferentes do produto inicial.
Apesar disso, é muito melhor reciclar resíduos do que
descartá-los no meio-ambiente, poluindo-o e ainda por cima
pressionando ainda mais as limitadas reservas que a Terra
dispõe. Basta citar como exemplo que a reciclagem do alumínio
das latinhas e outros objetos permite uma economia de até 95%
de energia elétrica em relação ao alumínio obtido a partir de
seu minério (a bauxita). A reciclagem se enquadra, como os
demais aspectos da questão ambiental, num contexto
interdisciplinar: ela tem geralmente como grande vantagem a
redução do consumo energético frente à fabricação do mesmo
produto a partir de fontes primárias. Ora, a questão do
consumo energético prende-se à disponibilidade a partir de
fontes fósseis, que são limitadas (petróleo, carvão, gás
natural), da energia nuclear (grande geradora de resíduos
perigosos) e da energia de origem hidrelétrica, que é
dependente do ciclo da água e está sofrendo com as alterações
desse ciclo devido às alterações climáticas que pairam sobre o
planeta na atualidade.
Talvez por isso a indústria em geral tem dado tanta atenção à
reciclagem, inserida em um escopo mais geral que se chama
“atuação responsável”, que tem por filosofia a adoção de
procedimentos de melhoria contínua em vários ramos de
atividade industrial, com destaque para a redução na emissão
de efluentes, controle de resíduos (geração e reciclagem),
saúde e segurança no trabalho. Todo o ciclo de vida de um
produto químico é cuidadosamente analisado para evitar
qualquer risco ao meio ambiente, e a reciclagem é uma das
alternativas disponíveis.
A arte da reciclagem é mais complexa do que parece à primeira
vista. Não se trata simplesmente de jogar plásticos,
embalagens de aço, alumínio, papéis... num determinado
processo. Deve-se mencionar que existem diversas precauções a
serem tomadas quando se deseja empreender um negócio neste
ramo. Vejamos alguns exemplos: não se recicla vidro comum
misturado com pyrex, vidro incolor com vidro marrom (ou
âmbar); a presença de líquidos oleosos “mata” a reciclagem do
aço; o papel molhado ou sujo com gordura inviabiliza a
reciclagem do mesmo (por isso, papéis toalhas e guardanapos
não são recicláveis); o velho papel carbono não se recicla; o
óleo usado não pode ser reutilizado sem que passe por um
processo de purificação (o re-refino); a reciclagem de
baterias de chumbo (de automóveis) exige a tomada de medidas
de proteção à saúde dos trabalhadores (pois o chumbo é um
metal pesado causador de sérios distúrbios à saúde humana,
conhecidos em conjunto como saturnismo). E assim vai...
Em conjunto com esses aspectos mais técnicos, não se pode
descuidar de dar uma olhada constante nas legislações
ambientais do Brasil e mesmo do exterior sobre resíduos em
geral. Nenhuma atividade pode se feita sem o conhecimento e a
obediência às regulamentações sobre o setor, sob pena de
sanções que podem até comprometer a viabilidade do
empreendimento. Não basta apenas conhecer as regulamentações,
pois elas muitas vezes estão sujeitas a revisões. É o que
acontece em nosso país, atualmente, com as resoluções do
Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), um dos colegiados
do Ministério do Meio Ambiente, sobre pilhas e baterias
(resolução 257/99), re-refino de óleo lubrificante (resolução
09/93), resíduos de serviços de saúde (resolução 283/2001) e
pneumáticos (resolução 258/99). A desatualização leva o
empreendedor a ficar atrás no mercado da reciclagem, e a busca
pela atualização é uma necessidade para que novas e criativas
soluções sejam criadas, constituindo-se num diferencial num
segmento de mercado que tende a ser extremamente competitivo,
e com grande espaço junto à mídia em geral.
Desse modo, antes de as pessoas se aventurarem no campo da
reciclagem, é preciso que estejam devidamente instruídas sobre
o que é a reciclagem e seus pré-requisitos para que a animação
inicial não se transforme em pesadelo depois. Existem inúmeras
oportunidades de cursos e similares, não só para os
iniciantes, mas também para os que buscam novas informações.
Contudo, as pessoas devem escolher apenas aqueles cursos cujos
ministrantes tenham uma real experiência no segmento, sendo
capazes de dar uma luz às pessoas sobre os prós e contras, as
dificuldades que as esperam, o investimento inicial a ser
feito, as licenças de funcionamento, etc... As experiências
que eu tive com diversas turmas mostram as mais variadas
reações após terem uma visão geral dos vários aspectos da
reciclagem: frustração, decepção, cautela, convicção,
surpresa... A maioria das pessoas não tinha idéia da
complexidade do mundo da reciclagem, de suas armadilhas e da
luta que se trava para obter um resultado financeiro
compensador.
Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, existe um curso
denominado “Coleta Seletiva e Beneficiamento de Lixo – Como
Fazer Disto um Negócio”, oferecido pelo Núcleo
Interdisciplinar de Estudos Ambientais e Desenvolvimento (NIEAD)
do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN). Dentre
seus objetivos destacam-se: discutir a importância da coleta
seletiva de materiais recicláveis proveniente do lixo urbano e
dos grandes geradores;· o modus operandi da coleta seletiva,
discutindo-se o que é gerado, como armazenar, como destinar e
comercializar os diferentes produtos; os aspectos
econômico-sociais relacionados ao mercado de reciclagem;
formação de cooperativa e programa de apoio. Pessoas
interessadas em implantar programas de coleta seletiva de lixo
em comunidades, escolas, empresas, condomínios, clubes e
restaurantes, empreendedores desejosos de comercializar
resíduos para reutilização ou reciclagem, profissionais do
setor de resíduos sólidos e limpeza urbana, cooperativados de
coleta de lixo, formadores de opinião e membros de ONGs são os
principais usuários deste curso. O Núcleo dispõe também do
Curso de Reciclagem de Plásticos e Educação Ambiental para
Gestores do Meio Ambiente.
Mais informações podem ser obtidas pelos telefones (21)
2598-9495 ou no sítio do NIEAD - www.niead.ufrj.br
Júlio Carlos Afonso pertence ao Depto. de Química Analítica
do Instituto de Química da UFRJ e é um dos professores que
ministra o Curso de Coleta Seletiva e Beneficiamento de Lixo
Urbano no NIEAD/CCMN/UFRJ.
Setor Reciclagem
fonte: EcoAgência - www.ecoagencia.com.br
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