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Cheque de papel
reciclado
Há pelo menos dez dias, cruzar com uma viatura
da Guarda Civil Municipal pelas ruas de São Caetano tornou-se
um tormento para os catadores de sucata que trabalham na
cidade
Sem receberem quaisquer esclarecimentos, são abordados pelos
policiais, autuados e têm suas carroças apreendidas. Os
veículos só são liberados mediante ao pagamento de uma taxa de
R$ 53, com R$ 15 de acréscimo para cada dia de atraso.
As apreensões fazem parte de uma operação de fiscalização
ordenada pela DTV (Diretoria de Transportes e Vias Públicas),
que, segundo a Prefeitura, visa coibir o roubo de placas e
tampas de bueiro. De acordo com os catadores, mais de 40
carroças já foram detidas em menos de duas semanas. Eles se
dizem "perseguidos" pelos guardas municipais e "impedidos de
trabalhar". São abordados a qualquer hora do dia em locais
indeterminados.
"Onde eles vêem catador estão mandando parar e levam nosso
carrinho", conta Edson Tadeu de Souza, carroceiro há cinco
anos. De acordo com ele, os catadores estão sendo
discriminados e tratados como marginais. "Ninguém é ladrão
aqui não. Todos precisam sustentar a família. Comprar comida e
roupa para os filhos", argumenta.
Uma das carroças presas é de José da Conceição. O catador
contou que cumpria sua rotina de trabalho religiosamente na
manhã do último sábado, dia 17, no bairro Santa Maria, quando
foi abordado por dois guardas municipais. Pediram pela
credencial, comprovante do cadastro que lhe dá o direito de
transitar pela cidade puxando uma carroça. Ele exibiu sem
hesitar, mas não bastou. Sem saber o motivo, teve seu meio de
transporte detido. "Voltei para o depósito sem nada", lamenta.
"Meu ganha pão é puxar carrinho", completa o catador, que
agora utiliza uma carroça emprestada para continuar a
trabalhar.
Dois dias antes desse episódio, José Carlos de Assis passou
por situação semelhante. "Estava passando por um posto de
saúde na (rua Senador) Robert Simonsen, quando pediram para eu
parar e a minha credencial. Eu dei, mas prenderam meu
carrinho. Segundo eles, eu estava em área central", relata.
Desde 23 de junho de 2003, a circulação de veículos de tração
animal carregados por homens em São Caetano está sob a
vigência da Lei Municipal nº 4.152, que estabelece, entre
outras regras, um cadastro obrigatório para que os catadores
possam trabalhar. "Não está valendo mais nada. Estão
apreendendo todos", contesta o dono de um depósito que não
quis se identificar temendo represálias. Assim como os
catadores José da Conceição e José de Assis, o sucateiro
também desconhecia a existência de uma lei. "Além de prenderem
o carrinho, prendem a carteirinha da pessoa", completa Souza.
De acordo com outro sucateiro que também prefere preservar a
identidade, já foram feitos três cadastros diferentes desde a
sanção da lei. "Cada hora dão uma credencial. Depois dizem que
aquela não vale mais e prendem o carrinho do catador", afirma.
Segundo o dono de um depósito há nove anos, a lei nunca foi
cumprida. "Deve ter acontecido casos isolados, talvez um
bêbado que atrapalhou o trânsito, o que acontece em qualquer
cidade, e alguns moradores devem ter reclamado para a
prefeitura. A ordem agora é acabar com os catadores",
suspeita.
Há cerca de 20 dias, a DTV passou para alguns sucateiros uma
lista com as ruas e os horários que os catadores poderiam
circular. Entre as vias restritas em período integral estão:
rua São Paulo, José Paolone com Oswaldo Cruz, Estrada das
Lágrimas, Guido Aliberti, Kennedy, viadutos (só o Tortorello
está liberado) e a avenida Goiás. Com circulação liberada
somente a partir das 20h estão a Visconde de Inhaúma, Alegre,
Tijucussu e área central.
Mas, de acordo com os catadores, que desconheciam essas
imposições, as regras não são respeitadas. "Estão pegando em
qualquer lugar", afirma o carroceiro há seis anos Lúcio José
da Silva. Segundo ele, as limitações impedem o trabalho dos
catadores. "Não tem como. Para a gente ir para o outro lado
tem que atravessar a Goiás. E trabalhar nesse horário não dá",
reclama.
O Diário tentou três contatos (dois na quarta e um
sexta-feira) com o diretor da DTV, Geová Maria Faria. Mas ele
só se pronunciou por meio de nota oficial. No documento,
afirma que o Poder Executivo está apenas cumprindo as
determinações da lei. Segundo a nota, os carroceiros estão
sendo recadastrados, o que tanto catadores quanto sucateiros
desmentem.
Quanto às apreensões das carroças, a diretoria diz que não
apreende as carroças de propriedade dos catadores e sim os
orienta a regularizarem a situação na Prefeitura. De acordo
com catadores e sucateiros, a administração municipal cobra R$
107 pelo cadastro, valor que não foi confirmado nem desmentido
pela Prefeitura. Para os carroceiros, a regularização do
serviço é vista com bons olhos, desde que sejam consultados.
"Quer forma uma cooperativa, regularizar nosso trabalho, fazer
uniforme, melhor para a gente. Mas não venham aprender
carrinhos de gente trabalhadora e honesta", pontua Souza.
Correria para chegar antes do lixeiro
Ainda sob o céu escuro, Carlos Roberto Capelo, 56 anos, deixa
o barraco onde mora, nos fundos de um depósito de sucata, para
ganhar as ruas de relevo acidentado. São 4h30. Quer e precisa
chegar antes da coleta de lixo. Caso contrário, a grana no fim
do dia fica ainda mais curta. Parte do bairro Prosperidade no
sentido Centro de São Caetano. Conhece bem os meandros da
cidade pela qual trafega há 14 anos. Tem seus clientes fiéis.
Empresas e firmas que já deixam separados tudo o que é
reciclável junto ao lixo. O trabalho do catador supre a
ausência de uma coleta seletiva municipal. Quando o mar não
está para peixe, é obrigado a vasculhar nos sacos de lixo para
não voltar para a casa com a carroça vazia.
10h. A caçamba começa a transbordar. Hora de voltar ao
depósito para descarregar o material e fazer a pesagem. A
quantia que recebe é avaliada de acordo com o peso da sucata
coletada. "Se tirar o meu carrinho eu morro de fome", conta
Capelo. Fim da primeira etapa. Um breve e merecido descanso,
com direito a uma humilde refeição, antes de seguir com sua
companheira inseparável, que, quando cheia de papelões, ferro
e garrafas plásticas, chega a pesar 400 kg.
Durante a tarde a peregrinação se repete. Debaixo de sol ou de
chuva, a carroça, que já foi detida uma vez pela DTV, não
deixa de circular. "Eles me pegaram quando eu estava saindo
aqui do depósito. Falaram que eu não poderia trabalhar na rua
e prenderam minha carroça", lembra. Capelo divide o mesmo
espaço com carros, ônibus e caminhões. Até por isso, coleciona
todos os dias buzinadas e insultos. Ignora-os. Só pensa em
retornar ao depósito, receber seus R$ 8 ou R$ 12 como
pagamento e fazer a segunda e última refeição do dia.
fonte: Diário do Grande ABC - www.dgabc.com.br
fonte:
www.setorreclicagem.com.br |