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Guerra comercial
pode trazer pneus usados para o Brasil
O governo
brasileiro é contrário à importação de bens usados para
consumo ou matéria-prima, mas, acabou se curvando a uma
decisão do Tribunal Arbitral do Mercosul, que obrigou o país a
aceitar até 130 mil pneus remoldados do Uruguai a cada ano
Com a decisão no Mercosul, produtores de países como Itália,
Espanha e Reino Unido apelaram à Comissão Européia contra
supostas barreiras à importação de seus pneus usados, alegando
prejuízos comerciais com a queda nas exportações para o
Brasil.
A disputa pela importação desses pneus, que seriam usados para
abastecer a indústria e o mercado internos de remoldados, pode
acabar na Organização Mundial do Comércio (OMC). Esse debate
envolve o posicionamento do Brasil no mercado e nas questões
globais, onde os temas saúde e meio ambiente têm muito peso ,
disse o secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente,
Claudio Langone. Ele participou hoje de audiência pública
conjunta das comissões de Meio Ambiente e de Assuntos Sociais
do Senado.
De acordo com Langone, dar um fim adequado a pneus é um
desafio enfrentado em todo o mundo, mas muitos países têm
procurado solucionar seus problemas enviando seus resíduos
como "ajuda humanitária" ou como "solução ambientalmente
adequada" para nações pobres ou em desenvolvimento. Segundo
ele, a questão se acirrará em 2006, quando a Europa proibirá o
descarte de pneus em aterros. "A região terá que dar um fim a
cerca de 80 milhões de pneus usados.
Mas o Brasil não pode ser a solução para os resíduos de outros
países", defendeu. A importação de pneus usados foi
questionada por todos os representantes do governo brasileiro
durante a audiência pública.
Apesar de proibida no País, a importação de pneus usados para
remoldagem (recauchutagem) de outros países tem ocorrido com
base em liminares concedidas pela Justiça. O número de pneus
que tem entrado no Brasil desta maneira é crescente, e deve
chegar a 11 milhões em 2005.
A principal alegação da indústria de remoldados para a
importação seria a baixa qualidade do pneu usado nacional. A
qualidade das estradas, o descarte inadequado e o baixo poder
aquisitivo da população seriam a causa da má qualidade dos
pneus usados no Brasil. O País tem seu sistema de transporte
baseado nas rodovias e no amplo consumo de pneus.
Para o Inmetro, no entanto, o pneu usado nacional é totalmente
viável para remoldagem. De acordo com Alfredo Lobo, diretor de
qualidade do instituto, "a carcaça nacional é semelhante à
importada". O diretor avisou que a partir de 1º de julho de
2006 a certificação das carcaças para reforma será
obrigatória. "Confiamos que o pneu reformado e avaliado é
perfeitamente seguro", disse.
Os pneus são resíduos de difícil eliminação. Não são
biodegradáveis e seu volume tornam o transporte e o
armazenamento complicado. Apesar de não serem considerados
perigosos, sua queima libera substâncias tóxicas e
cancerígenas, como dioxinas e furanos.
Quando jogados em rios e arroios e até nas cidades, os pneus
obstruem a passagem da água, podenco causar alagamentos e
transtornos à população. Além disso, servem como criatório
para mosquitos transmissores de doenças tropicais.
As milhares de carcaças abandonadas no Brasil são uma das
principais causas da proliferação da dengue. Como os ovos do
mosquitos transmissor sobrevivem até um ano sem água, a
importação de pneus de outros países pode trazer ao Brasil
novas variedades do vírus transmissor da dengue ou de outras
doenças.
Projeto de Lei - A importação de pneus usados pode acabar
sendo oficializada no País se o Projeto de Lei 216/2003, do
senador paranaense Flávio Arns, for aprovado pelo Congresso. O
texto exige "contrapartida ambiental pela colocação de pneus
no mercado interno, importados ou fabricados no Brasil", mas
também abre as porta do País para pneus usados, de qualquer
outra nação.
Além dos pneus importados usados, o Brasil tem o desafio de
dar destino ambiental adequado a cerca de 100 milhões de pneus
usados. Cerca de 40 milhões de carcaças são descartadas a cada
ano.
A Resolução 258/1999 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama)
prevê o recolhimento e a destinação gradativa de pneus usados.
No entanto, o texto não tem se mostrado suficiente para
reduzir ou eliminar a quantidade de pneus velhos no País.
De acordo com o diretor de Qualidade Ambiental do Ibama,
Márcio de Freitas, a dificuldade de coleta e de destinação de
pneus usados tem dificultado o cumprimento da resolução, tanto
por empresas nacionais como estrangeiras. Além disso, conforme
Freitas, existe a dificuldade do Ibama em identificar o que
são pneus usados de inservíveis na importação.
Para auxiliar na solução do passivo de pneus usados, o Ibama
propõe o recolhimento e o uso das carcaças nacionais para
remoldagem, a ampliação da inspeção veicular e a criação de um
sistema de coleta nos postos de troca de pneus. "Isso acabaria
com a guerra comercial de pneus usados e ajudaria a reduzir os
acidentes de trânsito", disse o diretor.
Segundo a coordenadora de Integração Regional do Ministério da
Indústria e Comércio, Eliane Fontes, o Brasil sempre foi
contra a importação de bens usados de consumo, e o uso de
liminares para importação de pneus usados tem afetado a
indústria nacional de pneumáticos. Além disso, a importação
traria novos custos econômicos, sociais, ambientais e à saúde.
"O Projeto de Lei do senador Flávio Arns é um precedente
perigoso para a indústria nacional", disse.
Empresas - Para o presidente da Associação Brasileira da
Indústria de Pneus Remoldados (Abip), o paranaense Francisco
Simeão, a proibição da importação de pneus usados estaria
"penalizando quem lucra com a atividade", e criticou os
fabricantes de pneus novos, que estariam descumprindo a
legislação sobre recolhimento e destinação adequada de pneus
usados. Simeão também é presidente da BS Colway, empresa de
remoldagem de pneus homônima a uma indústria inglesa.
O governador do Paraná, Roberto Requião, também defendeu a
importação de pneus usados. Segundo ele, que se disse
"governador de um estado verde", a importação de carcaças para
remoldagem não traz prejuízos ambientais para o Brasil. Essa
medida, conforme o governador, teria elevado a uma maior
concorrência e à redução de preços no mercado.
De acordo com o presidente da Associação Nacional da Indústria
de Pneumáticos (Anip), que reúne multinacionais e empresas
brasileiras, Vilien Soares, a importação de pneus usados
estaria prejudicando a economia do setor, trazendo resíduos de
países desenvolvidos para o Brasil e estimulando a
concorrência desleal e o consumo enganoso. Segundo ele,
existem pelo menos 10 milhões de pneus no Brasil em condições
de serem recauchutados.
Ainda conforme Soares, existiriam um excesso de importações,
já que as empresas de remoldados estariam usando 2,5 milhões
de pneus usados por ano, enquanto as importações já teriam
ultrapassado as 10 milhões de unidades. Além disso, entre 30%
e 40% dos pneus usados importados seriam inservíveis, não
poderiam ser remoldados.
"Não entendemos o excesso de importações", disse. De acordo
com Simeão, esse excesso serviria para manter estoques nas
indústrias de remoldagem e também seria usado em indústrias de
cimento e de siderurgia.
Depois de mais de quatro horas de debate, os senadores
decidiram formar um grupo de trabalho e continuar a discussão
sobre o destino da importação de pneus usados para o Brasil.
fonte: O Documento - www.odocumento.com.br
fonte:
www.setorreciclagem.com.br |